Análise Económica

Análise BPI 2008-02-25 09:13

O mercado imobiliário e as perspectivas para evolução da economia dos Estados Unidos

Nos últimos dias, a Fed publicou previsões de crescimento mais pessimistas que as apresentadas em Outubro. O cenário apresentado mostra simultaneamente uma maior dispersão das perspectivas dos diferentes membros do Federal Open Market Committee (FOMC) o que espelha elevada incerteza quanto à evolução da economia dos EUA. Dado que o sector imobiliário pesou fortemente do lado negativo para o crescimento do PIB no trimestre passado, importa analisar os últimos indicadores disponíveis para o sector.

Lara Wemans, do Departamento de Estudos Económicos e Financeiros do BPI

Na passada quarta-feira foram publicadas as actas das reuniões de Janeiro da Fed que incluem um resumo das projecções económicas dos seus membros para a evolução anual do PIB, do desemprego e da inflação, entre 2008 e 2010. Neste documento o crescimento económico de 2008 é revisto em baixa para o intervalo entre 1.3% e 2% face às previsões de Outubro que apontavam para 1,8%-2,5%, sendo apresentados como principais condicionantes a forte contracção no mercado imobiliário e a limitação do acesso ao crédito por famílias e empresas. De referir que o ponto médio do intervalo de crescimento em 2008 foi, assim, revisto para 1,7% face a 2,2% anteriormente. Em linha com esta previsão, o desemprego foi revisto em alta para o intervalo 5,2%-5,3%. Apesar do abrandamento do crescimento, os membros do FOMC não esperam que a inflação abrande substancialmente tendo sido revista em alta a variação dos preços no consumidor excluindo energia e alimentos para 2%-2,2%. Destaca-se ainda o aumento na dispersão das projecções dos diferentes participantes o que reforça a ideia de que as previsões para a evolução da economia norte americana em 2008 estão envoltas em elevada incerteza, apresentando-se o comportamento do mercado imobiliário como uma importante condicionante.

Assim, o acompanhamento da evolução dos principais indicadores para o sector imobiliário pode trazer pistas no que toca ao desenvolvimento da economia norte-americana em 2008.

Esta semana foram publicados dados pouco animadores referentes ao sector da construção. Apesar da construção de novas habitações ter aumentado 0,8% em Janeiro face a Dezembro, no mesmo período assistiu-se a uma contracção de 3% nas licenças de construção concedidas, um indicador avançado do comportamento do sector, que atingiu o mínimo dos últimos 16 anos. Para além disso, segundo a Countrywide Financial Corp. as prestações de crédito à habitação em atraso atingiram em Janeiro o nível mais elevado dos últimos seis anos e a execução de hipotecas atingiu os 1,48%, o que aumenta a oferta de casas no mercado, aumentando os desequilíbrios existentes.

Do lado da procura, os últimos dados para as vendas de habitações, tanto novas como usadas, que remontam a Dezembro não evidenciam uma quebra da tendência negativa que se arrasta desde 2005 além de que um indicador avançado que mede as promessas de compra de casas usadas voltou a variar negativamente em Dezembro. Para além disso, segundo dados da Mortgage Bankers Association, a procura de crédito à habitação esteve ao nível mais baixo desde o início do ano na segunda semana de Fevereiro. A política monetária da Fed não surtiu, pelo menos para já, os efeitos desejados no sector imobiliário, na medida em que, a descida das taxas de juro de referência não parece ter aumentado a procura de casas tendo o índice do mercado imobiliário, revelado no passado dia 19 pela National Association of Home Builders, continuado em níveis significativamente abaixo dos 50, que representaria uma situação neutral.

Neste contexto, os preços das casas deverão continuar a sofrer pressões no sentido de baixa. O indicador do preço das casas do Office of Federal Housing Enterprise Oversight caiu pela primeira vez em quase 30 anos no terceiro trimestre do ano passado tendo diminuído 0,4% face ao trimestre anterior. Também o índice de preços das casas S&P/Case-Shiller que considera 10 cidades, cujo valor mais recente divulgado remonta a Novembro de 2007, apresentou uma queda recorde de 8% em termos homólogos, superior à observada em 1991.

Perante estes dados, não existem indicações de que o sector esteja a recuperar da profunda crise em que se encontra, devendo continuar a arrastar a economia dos EUA para crescimentos muito baixos, estando garantido um período prolongado de crescimento abaixo da tendência histórica.


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