Análise Económica

Análise BPI 2008-02-29 11:26

O nível psicológico dos 1,50 já é passado

Durante os últimos meses, o câmbio euro/dólar hesitou perante o teste e ultrapassagem do nível psicológico dos 1.50, acentuando-se a sua importância como barreira de resistência. Este facto fez atenuar a forte tendência de alta, que se desenhou ao longo de 2007, e foi criado um intervalo largo de variação de cariz mais lateral. O mercado considerava que os principais factores económicos estavam descontados, no entanto, a incerteza quanto ao futuro era muita, sendo necessário aguardar por informações adicionais.

Agostinho Leal Alves, do Departamento de Estudos Económicos e Financeiros do BPI

Nos últimos dias, essas informações foram chegando progressivamente e tornaram mais clara, sobretudo a situação económica dos EUA: prossegue a correcção/crise do mercado imobiliário, com as vendas e preços das casas a não pararem de cair (há desconfiança acerca da possibilidade de ser uma crise pior que a ocorrida em 1991); a confiança dos consumidores verifica uma forte queda, para valores de há 5 anos; a confirmação da continuada degradação do mercado de trabalho, que vê aumentar os pedidos de subsídio de desemprego e diminuir os novos postos de trabalho gerados; o crescimento da actividade económica no quarto trimestre de 2007 a ficar aquém das expectativas e a prenunciar uma quebra acentuada da actividade económica futura. Todas estas novas informações fizeram aumentar e clarificar o risco de a economia norte-americana poder entrar numa situação de recessão. Perante este cenário, o Presidente da Reserva Federal, deu a entender que a autoridade monetária está atenta e prosseguirá uma política monetária agressiva, no seguimento de anteriores actuações, de modo a impedir que, de facto, a maior economia do mundo entre em recessão. Ben Bernanke vai ter de continuar a agir com rapidez, tal como fez em Janeiro, onde, por duas vezes, decidiu baixar as taxas de juro. A taxa dos fed-funds desceu globalmente 125 pontos-base, situando-se nos 3,00%. Agora aponta-se a necessidade de um corte de mais 50 pontos-base. O Presidente da Fed reconhece que o banco central está numa posição mais difícil para responder ao abrandamento económico que em 2001, mas esta é a sua preocupação central, não se esperando inquietação com a inflação.

A Zona Euro, apesar das revisões em baixa do crescimento e do surgimento de sinais de abrandamento económico, deverá mostrar maior resistência que a economia americana. No entanto, é possível discernir dentro do bloco europeu falta de homogeneidade, havendo várias velocidades de crescimento. No entanto, a prioridade das autoridades está principalmente centrada na preocupação com o surgimento de uma espiral inflacionista. Deste ponto de vista, uma descida dos juros como estímulo à actividade económica parece por ora fora de questão, sendo mais natural que a política monetária permaneça inamovível durante um largo período de tempo. Num cenário mais pessimista, há sempre a possibilidade de que possa ocorrer uma correcção no sentido da descida das taxas de juro de referência, nos últimos meses do ano, se tal for necessário. Há sempre que contar com a actual situação do euro forte que, pode ser elemento de abrandamento económico mas, sobretudo, de controlo da inflação. Para já foi desmistificado, por elementos do BCE, que os presentes níveis do câmbio euro/dólar possam ser, de algum modo, prejudiciais à evolução da economia europeia.

Uma maior procura de euros, em detrimento de dólares, está à partida garantida por um diferencial de juros que se vai tornar ainda mais vantajoso para a moeda única europeia. Para além de uma maior remuneração, os investidores estão a ganhar do lado cambial, com o fortalecimento do euro. Reposta a tendência de alta de longo prazo, depois de um período de estabilização/consolidação, o câmbio euro/dólar pode ganhar fulgor para conquistar novos níveis máximos. Para já, parece-nos importante os 1,53 e os 1,55 dólares, sendo também previsível que possam ocorrer normais e habituais movimentos de correcção, posteriormente.


Comentários
 
Realista
No final do segundo parágrafo, o autor diz: " foi desmistificado, por elementos do BCE, que os presentes níveis do câmbio euro/dólar possam ser, de algum modo prejudiciais à evolução da economia europeia". DESMISTIFICADO? COMO?
 
Zé
Já não há duvidas, a União Europeia caminha a passos largos para a recessão, e tudo em nome da "estabilidade de preços"!!!
 
Zé
É verdade que os Senhores que decidem sobre as taxas de juro no BCE estão a fartar de ganhos os Bancos e outras instituições de crédito dos seus países. Mas estão-se a esquecer de que, quando a União Europeia entrar numa recessão, seram também os Bancos e as restantes instituições de crédito os mais prejudicados e os que entrarão em falência inevitavelmente!!!
 
adao
Euro forte: Europeus orgulhosos. Os Americanos estam-se a rir, convem nas as exportacoes. O Trichet e que nao parece incomodado com isso!
 
 
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