Análise Económica

Análise BPI 2008-03-07 18:50

As perspectivas económicas deterioram-se

Os sinais dados pelas economias dos EUA e da zona euro continuam a fazer aumentar a incerteza sobre o desempenho económico destas economias em 2008. Na semana passada, o detalhe dos dados do PIB do quarto trimestre na Europa e o livro bege nos EUA, entre muitos outros indicadores, assim como as intervenções do BCE e da Fed contribuíram para movimentos significativos no mercado da dívida pública que reflectem o reforço da fuga para a qualidade.

Lara Wemans, do Departamento de Estudos Económicos e Financeiros do BPI

Na semana passada foi divulgado o comportamento das componentes do PIB na zona euro ao longo do quarto trimestre de 2007. O crescimento em cadeia foi de apenas 0,8%, como já tinha sido anunciado, e o crescimento homólogo foi revisto em baixa para 2,2%. Estas estimativas finais revelaram ainda, que o consumo privado caiu 0,1% em cadeia, o mesmo sucedendo com o consumo público. Por seu turno, o investimento cresceu 0,8% e as exportações 0,5%, enquanto que as importações caíram 0,4%, tendo como base o trimestre anterior.

Os dados para o consumo são bastante preocupantes e reflectem um baixo índice de confiança dos consumidores, principalmente na Alemanha, onde a queda desta componente foi mais pronunciada, variando em termos trimestrais -0,7%. O consumo privado na maior economia da zona euro pode recuperar alento no início deste ano, caso as negociações salariais em curso confirmem, como se espera, o aumento significativo do poder de compra das famílias alemãs e este facto tenha impacto na confiança dos consumidores e se traduza num aumento significativo do consumo privado.

Uma análise do contributo dos diferentes sectores para a evolução do PIB na União Económica e Monetária (UEM) no quarto trimestre mostra que o sector da agricultura, caça e pesca e o sector financeiro foram os que mais cresceram em termos trimestrais, respectivamente 1,2% e 0,8%, tendo o sector do comércio, transportes e serviços de comunicação estagnado.

Na reunião de quinta-feira o BCE manteve a taxa de juro de referência inalterada. No discurso que seguiu o anúncio da decisão Trichet frisou, como esperado, os riscos para a inflação reafirmando também que os fundamentos da economia da zona euro continuam a mostrar robustez, apesar da incerteza permanecer elevada. Assim, o BCE adoptou uma posição clara dando sinal ao mercado de que não adoptará uma política monetária expansionista num futuro próximo.

No que toca à revisão das previsões para os próximos dois anos, estas foram mais significativas do que era esperado, na medida em que, considerando o valor médio dos intervalos de previsão, o BCE aponta agora para um crescimento na zona euro de 1,7% em 2008, face a 2% previstos em Dezembro, e para uma ligeira aceleração para 1,8% em 2009. Em termos de inflação, este organismo considera que os preços crescerão acima do objectivo dos 2%, tanto em 2008 como em 2009, situando-se o ponto médio dos intervalos de previsão em 2,9% para 2008 e 2,1% no ano seguinte.

Nos EUA as notícias económicas têm também contribuído para a deterioração das perspectivas económicas, nomeadamente o quadro descrito no livro bege aponta para uma desaceleração do crescimento desde o início do ano em oito das doze regiões.

Destaca-se ainda o discurso de Ben Bernanke, no dia 4 de Março que se dirigiu essencialmente ao sector bancário pedindo que os bancos perdoem parte da dívida a devedores em risco de incapacidade de pagamento. Este apelo surge num contexto de grave crise no mercado imobiliário norte-americano, com aumento da execução de hipotecas, à medida que a desvalorização das habitações se acentua. O discurso do Presidente da Fed fez aumentar a incerteza nos mercados que estão já posicionados para que a próxima decisão da Fed seja de queda de 75 pontos base na taxa dos fed-funds.

Neste contexto, o mercado da dívida pública valorizou-se, principalmente na zona dos 2 anos em que as yields atingiram níveis muito baixos reforçando a inclinação da curva de rendimentos entre esta maturidade e os 10 anos que atingiu os 200 pontos base. Esta incerteza não se limita aos EUA, na medida em que, também na Europa se continua a assistir a alguma fuga para a qualidade, desta feita principalmente materializada na transferência de investimentos para títulos do Tesouro alemão de outros mercados da zona euro. Assim, o spread na maturidade de 10 anos exigido pelos investidores para investir em mercados como a Grécia e a Itália face às Bunds está já acima de 60 pontos base, enquanto que durante o ano passado rondou os 20 pontos base.

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