Análise Económica

Análise BPI 2008-03-13 14:37

O castelo desmorona-se

Os mercados de crédito têm transaccionado a níveis considerados fundamentalmente baratos, no entanto, a desalavancagem de posições estão a reforçar esta tendência descendente, mais ainda, no actual clima de extrema aversão ao risco, está a impedir que os agentes económicos voltem a tomar posições longas que quebraria a tendência.

João Sousa, do Departamento de Estudos Económicos e Financeiros do BPI

Durante a última década assistiu-se ao rápido desenvolvimento do mercado de produtos estruturados, o qual permitiu às instituições financeiras mudar o seu modelo de negócio de “originar e manter” para “originar e distribuir”. Aparentemente o novo modelo de negócio apresenta menos risco pois permite ao banco distribuir o risco pelos investidores. No entanto o colapso do mercado de subprime deixou a nu várias falhas do novo modelo. Embora cedo para se apurar em definitivo todas as falhas deste modelo, aponta-se a falta de informação num mercado sem regulação como uma das principais causas da crise. A falta de informação fez com que o principal indicador da qualidade de crédito destes produtos fosse a notação atribuída pelas agências de rating. À medida que os diferentes produtos foram acumulando perdas de valor, inclusive os que possuíam rating AAA, a confiança dos investidores na notação das agências de rating desvaneceu-se, o que se traduziu em alienações de posições que fortaleceram a espiral de descida dos preços.

Os problemas que afectam os mercados de crédito, actualmente, estão longe de terminar, de facto, parecem saltar de segmento de mercado em segmento de mercado deixando um rasto de prejuízos à sua passagem. Um factor comum às perturbações que se têm feito sentir é a falta de liquidez existente, não obstante, as intervenções que os principais bancos centrais efectuaram no sentido de regularizar a liquidez nos mercados financeiros, que acabaram por ter um efeito temporário sobre estes. Na sequência novas intervenções estão a ser ultimadas, nomeadamente, a Fed criou um novo instrumento de política monetária – Term Securities Lending Facility – que consiste na cedência de liquidez através do empréstimo de obrigações do tesouro em que o colateral utilizado pelas instituições financeiras são obrigações hipotecárias, instrumento através do qual planeia ceder 200 mil milhões de dólares.

Apesar destes esforços, a falta de predisposição das instituições financeiras para cederem liquidez ao mercado, que se traduz em condições de acesso ao crédito mais restritas, impede que o normal funcionamento dos mercados financeiros retome. Como referenciado acima, a desalavancagem tem constituído um dos principais riscos sobre os mercados de crédito, uma vez que estes se encontram alavancados entre 10 e 15 vezes, o que faz com à medida que os preços descem e são feitas chamadas na margem, que pressionam os preços no sentido descendente provocando novas chamadas na margem. Para além disso, no presente contexto de restrição no acesso ao crédito, o montante das chamadas nas margens tem sido superior, aumentando a dificuldade dos investidores para responderem a esta chamada. Este círculo vicioso poderia ser contrariado a partir do momento em que os fundamentais de mercado indicassem que os activos se encontram num nível considerado barato, tal não acontece de momento, principalmente, por duas razões: primeiro, os agentes que se encontram neste momento a desalavancar as suas posições são aqueles que tradicionalmente investem neste tipo de mercados; segundo, existem receios que a existência de cláusulas que obrigam à alienação de activos caso estes atinjam um determinado nível espolete uma venda massiva de activos ampliando, ainda mais, as perdas.

Estes acontecimentos têm aumentado os receios quanto ao montante das perdas que as instituições financeiras irão registar, bem como, quanto ao aumento da taxa de insolvência, o que tem levado os spreads de crédito para níveis ainda mais elevados. Assim o custo de um CDS – indicador avançado do custo de financiamento de uma entidade – medido pelos índices iTraxx Europe (constituído por empresas da classe de investimento) e iTraxx Crossover (constituído por empresas da classe especulativa) têm atingido sucessivos recordes, augurando-se um futuro particularmente difícil para as instituições financeiras nos meses que se seguem.


Comentários
 
Os Senhores da banca já estão a crer arranjar maneira de manter os mesmos lucros ou até aumenta-los subindo os spreds o que fará com que as taxas de juros subam mesmo que as taxas de juro(EURIBOR) baixem. Mas com isto os créditos ficarão mais caros e os problemas continuarão a aumentar. Como diz o ditado; quem tudo quer tudo perde!!! Estes Senhores, da banca, estão a ficar cegos com tanta ganância e querem que sejam só os seus clientes a pagar a crise. Mas isso é completamente impossível!!! Visto que a crise resulta precisamente do facto das pessoas não suportarem mais tanta Chulice e exploração!!! Baixem as taxas de juro, caso contrário os problemas, que já hoje se sentem e bem, vão continuar a aumentar até isto dar o grande estouro... Bummm...!!!
 
JL (diversosediversos@sapo.pt)
Desculpem mas não compreendi certas passagens do texto. "Desalanvancagem"?"...a desalavancagem de posições estão a reforçar esta tendência dominante, mais ainda no actual clima de extrema aversão ao risco, está a impedir que os agentes económicos voltem a tomar posições longas que quebraria a tendência". Mas o que é isto? alavancagem? do verbo alavancar? eu alavanco, tu alavancas, ele alavanca?mas alavanca é um verbo, ou um substantivo?podemos usar um susbstantivo como se fora um verbo ?" ..a desalavancagem de posições estão a reforçar...está a "? em que é que ficamos, "estão" ou "está"? "...posições longas..."? O que significa tudo isto ?Uma coisa é certa, para bem escrever é imperativo respeitar o léxico e a sintaxe,por exemplo,respeitar a concordância entre o sujeito e verbo, evitar a proliferação de estrangeirismos,os neologismos, os barbarismos. Ou será que no jornalismo económico dos noddos dias a clareza e o estilo da da escrita não são mais uma preocupação?Não se ofendam, mas permitam-me a pergunta: porque não revêm a sintaxe dos V. textos antes de os editar? Porque não contratam algúem com formação para rever e melhorar os V. textos ?Porque se permitem publicar textos com tantos barbarismos, com tantos estrangeirismos e neologismos? serão sinais dos tempos ? Melhores cumprimentos
 
Sdaburra
"Eles" já não sabem o que fazer nem às quantas andam. Não admira, não leram "Os ciclos económicos" da Gradiva... Se leram não podem dizer que não estavam avisados desde... 2003! Há quase cinco anos!!!
 
Herzen
É incrivel que depois de se ter constatado o facto da CRISE, os arautos da "NÂO CRISE", agora já a admitem quando outros a já anunciavam há muito muito tempo. Havia até quem afirmase que a Europa passaria incolume esra CRISE. Que ridiculos. Tantos cursos, tanta sapiência, obtida nas melhores Universidades além portas e tanta burrice junta. Haja pachorra.
 
Maria Aparecida (virgemaria2008@googlemail.com)
Dizer que o problema é a falta de informação é uma maneira delicada de dizer "não fazemos a menor ideia do que se passa", ou pelo menos, deveria ser, em nome da honestidade. É natural que quando os títulos "acumulem perdas de valor" que os investidores fujam dele como o diabo foge da cruz, independentemente deles terem "rating AAA". Isto, ao contrário de demonstrar falta de informação, demonstra alguma pespicácia, convenhamos. Na verdade, também, está tal "falta de liquidez" como se apresenta, neste caso particular, denuncia outra coisa que horrorisa os governos, bancos e investidores em geral. Não é verdade que os bancos não querem emprestar. A verdade é que quem pode pedir emprestimo, na óptica do banco, não quer e quem quer não pode. Se nosso analista estudar um pouco mais, verá que estamos mesmo a entrar naquilo que o velho Keynes chamava de "armadilha da liquidez" e, mais ainda, se o nosso analista ligar para o banco central do Japão, eles explicaram o que é isto, posto que já se debatem com este problema a mais de uma década. De todas as maneira, continue a rezar. Quem sabe...
 
Em Outubro os juros nos EUA estavam nos 5,25% e hoje situam-se nos 2,25%, ou seja; seis cortes consecutivos e grandes. Para bem de todos nós Europeus, só nos resta esperar que o BCE desça das nuvens e caia na realidade… Para começar a baixar as taxas de juro na União Europeia de uma vez por todas…!!!
 
P Amorim
JL e Maria Aparecida: faço minhas as vossas palavras.
 
Pedro
Não sendo um "expert" na matéria, o que consigo perceber é que os bancos emprestaram várias vezes mais do que receberam em depósitos dos seus clientes. Como o conseguiram fazer? Em parte, agrupando vários destes ditos créditos em pacotes e vendendo-os no mercado a quem queria investir nesse tipo de activos. Mas serão estas vendas definitivas ou será necessário de forma periódica, voltar a negociá-los no mercado? Se assim é, então teremos um problema: com a desconfiança sobre a evolução do valor destes activos, o interesse nestes reduz-se, e procura diminui, o que leva certamente ao aumento do preço, valendo o mesmo raciocínio para os novos empréstimos. Conclusão certa, o dinheiro está mais caro, e só há uma "alternativa" a par de outras medidas de melhoria de eficiência para os bancos: aumentar os preços do crédito cobrados ao cliente já que nenhum banco poderá sustentar uma redução dos lucros sem perspectiva de melhoria. É bárbaro para quem tem que pagar a prestação e para a empresa que já luta com dificuldades, mas inevitável para evitar que seja a banca a lutar com essas mesmas dificuldades, o que traria consequências ainda mais desastrosas. Investiria num negócio onde pudesse perder o seu dinheiro, onde vendessem abaixo do preço de custo e o prejuízo fosse certo? Claro que não, e quem investe nos bancos também não! Portanto, prepare a carteira, vai custar a todos nós que necessitamos de crédito.
 
 
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