No comunicado final, divulgado após a reunião, a Fed refere que a actividade económica continua a enfraquecer, sendo notório o abrandamento do consumo das famílias e a maior debilidade do mercado de trabalho. Por outro lado, a evolução da economia vai continuar muito dependente das consequências do agravamento das condições do mercado de crédito e da forte contracção do sector imobiliário, persistindo as turbulências nos mercados financeiros. Apesar das preocupações principais estarem centradas na evolução do crescimento e no risco dos EUA entrarem em recessão, há referências à situação de inflação elevada e à existência de expectativas de subida. No entanto, a autoridade monetária espera uma evolução mais moderada dos preços, por via de maior contenção no aumento dos custos da energia e de outros commodities e por menor pressão do lado da utilização dos factores de produção. Ainda assim, a Fed irá continuar a monitorizar cuidadosamente a evolução da inflação.
Esta medida de política monetária faz parte de um conjunto mais alargado de acções que visam restituir a confiança aos mercados financeiros, promover o crescimento, fazendo diminuir o risco económico-financeiro. Já há algum tempo que a Fed vem tendo uma política de injecção sistemática de liquidez no sistema, que culminou no acto desesperado de anunciar num Domingo, em vésperas da reunião do FOMC, novas facilidades de acesso à liquidez aos maiores bancos de investimento, com a descida da sua taxa de desconto de 3,50% para 3,25%, e ajuda específica ao Bear Stearns, dando suporte à compra deste último pela JPMorgan. Recorde-se que foi o colapso deste importante banco de investimento que agudizou ainda mais a instabilidade financeira e fomentou o surgimento de uma nova vaga de aversão ao risco. Dias antes, tinha sido anunciado um novo instrumento financeiro, o “Term Securities Lending Facility”, que possibilita a cedência pelo banco central de obrigações do tesouro pela troca de obrigações hipotecárias de maior risco, detidas pelas instituições financeiras. Ainda há a considerar um rol de alterações à regulamentação e supervisão do sector financeiro. No caso da luta contra o abrandamento económico, existe a resposta governamental através do pacote de estímulo fiscal que coloca nas mãos dos consumidores norte-americanos um cheque que pode ser direccionado para consumo ou para poupança, para além das ajudas às famílias com problemas de pagamento das suas hipotecas.
Aparentemente, esta nova decisão de descida das taxas de juro americanas trouxe acalmia aos mercados. As bolsas reagiram positivamente, as yields de prazos mais longos corrigiram em ligeira alta e o dólar viu estancar o movimento de perda sucessiva de valor para o euro. Mas estarão os mercados satisfeitos e tranquilos? Não. Mantém-se a desconfiança de que mais instituições financeiras possam repentinamente, à semelhança do Bear Stearns, mostrar graves dificuldades. Entretanto, dois dos maiores bancos mundiais, a Goldman Sachs e a Lehman Brothers anunciaram quebras em cerca de 50% nos seus resultados trimestrais, resultantes da crise do crédito hipotecário de alto risco, no entanto, foram divulgados valores melhores que o esperado pelos analistas. Por outro lado, os últimos dados económicos norte-americanos conhecidos mostram uma tendência mais acentuada de quebra de actividade: no sector imobiliário, a construção de novas casas em Fevereiro caíu, em termos homólogos, 28,4%, enquanto que as licenças de construção verificaram uma quebra de 36,5%, encontrando-se em níveis mínimos de há 16 anos; as execuções hipotecárias atingiram o nível mais alto de sempre, no 4º trimestre de 2007; a produção industrial mostra sinais de ligeiro abrandamento em Fevereiro, assim como a capacidade de produção utilizada está a diminuir; a economia perdeu inesperadamente 63 mil empregos em Fevereiro, maior queda desde Março de 2003, depois da redução de 22 mil em Janeiro.
Em suma, a Reserva Federal tem-se socorrido de todas as armas ao seu alcance na tentativa de contrariar não só a quebra económica mas também a forte instabilidade financeira e a total falta de confiança dos agentes económicos e financeiros. Não se pode criticar a falta de pragmatismo da Fed e a sua actuação atempada, existem sim vozes contra o excesso de ajudas, que visam salvar instituições com dinheiros públicos e não alterar condutas e desempenhos. Por outro lado, o uso de todos estes instrumentos, nomeadamente da consecutiva descida das taxas de juro, pode levar à perda de eficácia das políticas. No extremo, pode-se mesmo chegar à total falta de reacção dos mercados e da economia à actuação do banco central, se não for restabelecido um nível de confiança mínimo.
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