Análise Económica

Análise BPI 2008-04-03 16:00

Bernanke admite a possibilidade de contracção no primeiro semestre

Num discurso sobre a evolução da economia perante o Congresso, o presidente da Reserva Federal disse que as previsões económicas de curto prazo se deterioram, assumindo que o PIB, no primeiro semestre, desacelerará consideravelmente, admitindo-se mesmo a possibilidade de uma ligeira contracção.

João Sousa, do Departamento de Estudos Económicos e Financeiros do BPI

Após um mês em que a turbulência nos mercados financeiros foi dominante levando a Fed a intervir no mercado de forma contundente – foi criada Term Securities Lending Facilities, foi aberta a janela de descotno ('discount window') a instituições do mercado primário, a Fed ajudou à compra do Bear Stearns pelo JP Morgan e foi efectuado um corte nas taxas de juro de 75 pontos-base, para 2,25% – Ben Bernanke expressou preocupações quanto à evolução no curto prazo mas demonstrando optimismo quanto à evolução no médio prazo.

Nos mercados financeiros, as principais preocupações centram-se nas restrições financeiras das principais instituições, as quais têm efeitos no custo e na disponibilidade do crédito. Assim, por um lado temos assistido a um aumento dos spreads de crédito, embora com uma ligeira melhoria após meados de Março, e por outro as condições de acesso ao crédito têm-se tornado mais restritas. Estes acontecimentos têm-se reflectido na emissão de dívida, particularmente fora do espectro da classe de investimento em que as emissões estagnaram.

Devido às condições de acesso ao crédito mais restritas, a venda de casas, novas e usadas, têm caído de forma quase ininterrupta, colocando pressão sobre os preços no sentido descendente. Espera-se, então, que a construção residencial continue em contracção nos trimestres que se seguem.

O emprego, por sua vez, tem contraído, em grande parte devido ao enfraquecimento do sector da construção, mas com o abrandamento da economia espera-se que a deterioração das condições no mercado de trabalho se reflictam noutros sectores conduzindo a um aumento da taxa de desemprego.

A situação das famílias é, pois, adversa, e o crescimento do rendimento disponível e da despesa do consumidor – que constitui cerca de 2/3 do PIB norte-americano – abrandaram. O estímulo fiscal já aprovado pelo Congresso poderá constituir um factor de suporte ao crescimento da despesa, mas os efeitos deverão concentrar-se no segundo semestre de 2008.

A situação das empresas não financeiras permanece estável com estas a apresentarem solidez financeira. A incerteza quanto à evolução futura da economia levou a uma diminuição dos investimentos projectados embora a depreciação do dólar tenha provocado um forte aumento da procura externa. A Fed espera que a procura externa liquida tenha um contributo positivo para o crescimento económico nos próximos trimestres.

Face a estes problemas a Fed espera, como referido anteriormente, que o PIB no primeiro semestre cresça ligeiramente, existindo a possibilidade de contracção e antecipa uma recuperação na segunda metade do ano em parte devido aos estímulos fiscais e monetários. Em 2009, espera que o PIB evolua próximo do ritmo potencial induzido pela estabilização dos mercados financeiros e imobiliário. No entanto, a incerteza quanto a este cenário é elevada.

A Fed voltou a demonstrar que a inflação é uma fonte de preocupação. Os seus níveis elevados resultam em grande parte do aumento do petróleo, bens agrícolas e outras commodities. A expectativa de uma descida dos preços dos bens energéticos e alimentares nos próximos meses, conjugada com a recente diminuição ligeira da inflação core, leva a que Fed espere que a inflação modere nos trimestres que se seguem. No entanto, a existência de indicadores que apontam para uma subida das expectativas da inflação levam a Fed a estar especialmente atenta à evolução dos preços.

Consubstanciando as preocupações destacam-se uma série de indicadores económicos saídos ao longo das últimas semanas. A venda de casas novas voltou a decair, em Fevereiro, 1,8%, enquanto que a venda de casas usadas subiu, no mesmo período, 2,9%. O sinal dado pela venda de casas usadas poderá indicar que a procura estará a começar a reagir à descida dos preços, embora ainda seja precoce para confirmarmos esta tendência. Numa base anual, os preços das casas diminuíram 10,7%, em Janeiro. Por seu lado a confiança do consumidor desceu de 76,4 para 64,5 pontos, o nível mais baixo dos últimos cinco anos, confirmando os receios da Fed quanto a um abrandamento do consumo. Mais ainda, as encomendas de bens duradouros continuaram a descer, em Fevereiro, devido a uma diminuição significativa das encomendas de máquinas bem como das encomendas às fábricas que desceram 1,3%, em Fevereiro, depois de uma descida de 2,3%, em Janeiro, denotando um abrandamento da actividade económica nos EUA.


Comentários
 
Zé
"Desde 1929 que o Mundo inteiro é flagelado pela mais formidável crise económica que jámais se presenciou. Durante meses e meses quási se não tem ouvido falar de outra cousa que não sejam os maus negócios, o desemprego, a sobreprodução, o grande mal-estar e os sofrimentos por que se está passando. Milhões e milhões de homens teem a pouco e pouco ficado sem trabalho, arrastando consigo muitos mais milhões de seres, que deles dependem, a privações incríveis. Até mesmo nos países mais ricos do globo, se ouve o surdo rumor de protesto dos párias prestes a revoltar-se debaixo do aguilhão da fome." Excerto do livro: As grandes lições da crise, escrito por Marcelo I. Fayard e impresso em Lisboa no ano de 1933. O Homem tem memória muito curta e a História repete-se...
 
Grande crise
É verdade, a crise de 1929 foi terrivel e também afetou Portugal. Salazar, o Primeiro Ministro de então, teve azar: Depois de ter herdado um País destruido, politica,económica e financeiramente pela primeira república,teve de enfrentar essa tremenda crise que afectou o mundo. Depois apanhou a Guerra Civil de Espanha e a 2ª Guerra Mundial.Apesar de tudo, deixou umas finanças sãs, uma moeda forte, e o Banco de Portugal cheio de ouro. Morreu pobre, pois no seu tempo o Estado não pagava três vezes o justo valor das obras públicas.
 
Zé
"Salazar deixou umas finanças sãs, uma moeda forte, e o Banco de Portugal cheio de ouro." É verdade. Mas deixou também um monte de gente cheia de fome, de medo, doentes, ignorantes, analfabetos, reprimidos, censurados, desmotivados, tristes e fartos de guerra e miséria!!!
 
fascismo nunca mais
É incrível como ainda existem pessoas no mundo que exaltam as "virtudes" de regimes ditatoriais que castram a liberdade dos individuos... mas enfim espero que não se esqueça que os comentários que fazemos aqui livremente só são possíveis porque esse regime é parte do passado.
 
 
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