Análise Económica

Analise BPI 2008-04-10 16:12

Análise das previsões macroeconómicas do Fundo Monetário Internacional (FMI)

Num ambiente de incerteza quanto à evolução da economia mundial, a publicação semestral do FMI, divulgada no passado dia 9, apresenta um cenário bastante negro, apontando para uma desaceleração do crescimento mundial de 4.9% em 2007 para 3.7% em 2008, com maior impacto nas economias avançadas que, segundo este organismo, crescerão menos de metade do que em 2007, do que nos países emergentes.

Lara Wemans, do Departamento de Estudos Económicos e Financeiros do BPI

Estas previsões encontram-se alinhadas com o relatório sobre a estabilidade financeira global, publicado também pelo FMI, que aponta para que mais de metade das perdas relacionadas com a crise do subprime ainda não estejam contabilizadas.

O relatório sobre a estabilidade financeira do FMI aponta para perdas potenciais de 945 mil milhões de dólares, cerca de metade destas relacionadas directamente com o crédito à habitação nos EUA, aumentando a pressão sobre o sector bancário. No mesmo documento, esta organização defende uma atitude pró activa por parte dos Governantes que deverão preparar planos de acção no caso de novos problemas no sector financeiro, admitindo-se a possibilidade de se multiplicarem as instituições financeiras em apuros. Neste contexto, o FMI afirma que os riscos de maior instabilidade financeira são ainda muito elevados.

As previsões para a evolução da economia mundial apontam para um arrefecimento forte, se considerarmos que a média de crescimento desde 1980 é de 3.6% em 2008, seguida de uma recuperação gradual em 2009, ao contrário de expectativas que apontavam para uma recuperação acelerada. As previsões para o crescimento mundial (3.7% em 2008 e 3.8% em 2009) situam-se acima dos 3% (nível abaixo do qual se considera a existência de recessão) e da média de crescimento desde 1980 (3.6%) mas configuram uma acentuada e continuada desaceleração, fruto da manutenção de dificuldades no sistema financeiro e no sector imobiliário dos EUA a médio prazo, o que levará à retracção da procura e à manutenção de um elevado nível de incerteza. Mais concretamente, a maior economia mundial deverá crescer apenas 0.5% em 2008 e recuperar apenas marginalmente em 2009 apesar dos estímulos monetários e fiscais em curso, pesando fortemente na desaceleração do crescimento mundial. Simultaneamente, na zona euro o crescimento descerá abaixo do potencial (1.4% em 2008 e 1.2% em 2009) como resultado de impacto da crise no sector financeiro e no comércio externo, o que deverá conduzir à descida da inflação que se prevê que atinja o objectivo do BCE em 2009.

Evolução do PIB mundial

Neste contexto, também os países em desenvolvimento conhecerão uma desaceleração (crescendo como um todo 6.7% e 6.6%, respectivamente, em 2008 e 2009), não sendo de esperar uma descolagem destas economias na medida em que, apesar de até à data a maioria das economias emergentes estar a apresentar sinais de efectiva divergência devido à crescente integração na economia mundial e à prossecução de adequadas políticas de estabilização, a degradação da situação económica nos países desenvolvidos levará a diminuição das exportações e ao aumento das dificuldades em obter financiamento a nível internacional. Mais concretamente, a África Subsaariana deverá continuar a crescer acima dos 6% (6.6% em 2008 e 6.7% em 2009) e os únicos países ou agregados que viram as previsões de crescimento serem revistas em alta pelo FMI face a Janeiro foram o Brasil, a Rússia e o Médio Oriente.

Os riscos associados a estas previsões continuam, segundo o relatório apresentado, no sentido de uma maior desaceleração do que a apresentada, principalmente porque, na eventualidade de uma redução drástica na oferta de crédito, dar-se-á uma forte redução do consumo privado e do investimento, retraindo ainda mais o crescimento. Os analistas do FMI apontam para uma probabilidade de recessão global, ou seja, de crescimento abaixo de 3%, de 25% em 2008 e 2009.

Neste contexto, este organismo volta a frisar que, nos países em que existe margem para aumentar as despesas públicas, poderá ser necessário, não só deixar actuar os estabilizadores automáticos como impostos e prestações sociais associadas ao rendimento, mas também implementar políticas orçamentais expansionistas.

Quanto às previsões para Portugal, estas situam-se muito abaixo do crescimento perspectivado pelo Banco de Portugal (2% em 2008 e 2.3% em 2009), na medida em que o FMI perspectiva para este ano uma queda do crescimento face a 2007 (1.9%) de 0.6 pp e uma ligeira aceleração (+0.1 pp) em 2009. Comparando com as previsões para a zona euro, Portugal, ainda que marginalmente, e a Itália serão os únicos a crescer abaixo da média (1.4%) em 2008, no entanto, de 2008 para 2009 Portugal é das poucas economias na zona euro para as quais o FMI prevê uma aceleração do crescimento, o mesmo acontece somente para Irlanda, Luxemburgo e Chipre. Segundo este organismo, tanto a taxa de desemprego como a inflação em Portugal apresentarão uma tendência decrescente até 2009, atingindo nesse ano, respectivamente, 7.4% e 2%.

O Outlook Económico Mundial do FMI apresenta ainda 3 capítulos temáticos que foram divulgados no dia 3 de Abril. O capítulo reservado ao sector imobiliário aborda o aumento do impacto de variações elevadas nos preços das casas na economia e defende que a política monetária tenha em conta a sua evolução no processo de tomada de decisão. Outro dos capítulos publicados analisa os custos de minimizar as consequências das alterações climáticas no crescimento económico futuro apontando algumas soluções para maximizar os resultados dos esforços de contenção das emissões de CO2 a nível mundial. O último capítulo desta publicação, intitulado “globalização, preços das commodities e países em desenvolvimento”, centra-se no estudo do impacto da subida dos preços das commodities no aumento das exportações dos países em desenvolvimento defendendo que, mesmo perante um retrocesso nos preços em questão, deve continuar a assistir-se a um aumento da integração económica dos países em causa porque esta depende não só do fenómeno de melhoria dos termos de troca, mas também da maior liberalização do comércio mundial, entre outros.

Até ao final do semestre, espera-se a divulgação de projecções económicas pelos principais organismos nacionais e internacionais e será importante perceber se outras organizações acompanharão a forte revisão em baixa do FMI. Destacam-se as publicações de previsões pela Comissão Europeia, a 28 de Abril, e pela OCDE, no mês de Junho.


Comentários
 
O BCE está muito preocupado com a inflação e está a esquecer-se da deflação que poderá ser mil vezes pior!!! Foi a elevada deflação que levou o Mundo à grande crise iniciada em 1929. Será que neste momento o mercado imobiliário não está já em grande deflação(EUA)??? Será que não estarão a entrar em deflação outros mercados devido ao efeito domino criado pelo mercado imobiliário??? Como se poderá combater esta tendência de maneira a que não nos deixe-mos arrastar para o abismo??? Começar por baixar as taxas de juro seria entrar no bom caminho. Baixem as taxas de juro!!!
 
Realista
Não ha muito a dizer sobre este artigo. Vou apenas acrescentar duas reflexões. 1- A "rapaziada" neoliberal castrense tem da economia uma ideia parecida com as ciencias exactas. As leis do mercado são como as leis da física. Para a rapaziada é tudo muito mecãnico: os EUA entram em recessão, a UEM apanha uma grande pneumonia, a Espanha tambem e (finalmente) Portugal contagia-se, pela via das exportações. Mas quem disse que a UEM era um bloco económico? Nunca foi. Quando os EUA cresciam e a UEM tambem nós não crescemos. Porquê então essa inevitabilidade da crise? 2- É verdade que o principal destino das nossas esp. é a Espanha. Mas eu ainda tenho dúvidas sobre crise de Espanha e, além disso, temos Angola e temos o Brasil. Repararam que nas previsões /discutíveis) do FMI Angola e Brasil não descem? E depois nós somos só 10 milhões. Assim haja inteligencia. Que tem faltado, até agora.
 
CLEITON (cleitonmendes@superig.com.br)
O FMI que ultimamente errou feio sobre o crescimento do Brasil em 2007,onde previa que o PIB seria de 3,5% e foi na realidade de 5.4%, costuma dramatizar a crise e colocar o mundo,catastroficamente,como acabado. Futuramente se dará conta que ,como sempre, suas previsães estão no mundo da fantasia.
 
Quando as pessoas não têm poder de compra nem sempre é derivado à inflação, pode ser por outros motivos, como por exemplo; por falta de dinheiro, derivado ao endividamento excessivo, desemprego, baixos ordenados, étç... Tudo isto pode levar a uma descida dos preços dos produtos e no entanto as pessoas podem continuar sem poder de compra. Mas a isso não se lhe pode chamar inflação mas sim deflação. Conclusão os preços baixam e mesmo assim as pessoas não compram o que levará as empresas ao colapso, levando ao desemprego milhares de pessoas, a baixos salários, a mais endividamento e assim sucessivamente entrando num circulo vicioso até ao colapso geral de toda a economia e sociedade... Baixem as taxas de juro antes que seja tarde de mais!!!
 
Se os preços dos produtos estão altos e se os salários também estão altos, como diz o BCE, então é porque a economia está saudável e forte não havendo razões para preocupações. É sinal de que se está a vender bem os produtos produzidos, havendo portanto bom escoamento, bons negócios e muito emprego. Mas, não sei porque, não é isto que me parece que se está a passar! Vocês acham que a economia vai assim tão bem??? Se é assim eu estou enganado e é melhor ter taxas de juro elevadas. Mas se as coisas não estão tão bem como querem fazer parecer ou pior ainda, se há grande probabilidade de estagnação e retrocesso económico, dento do contexto actual, então estão a cometer um erro enorme e cujas consequências podem ser de tal maneira devastadoras que se tornam inimagináveis nos dias de hoje, tal é curta a nossa memória! Baixem as taxas de juros!!!
 
?
tanta letra para descutir crise .Ela é só uma. GUERRAS QUE TODOS TEMOS QUE PAGAR COM IMPOSTOS E SEM MÁIS COMENTÁRIO
 
valente (valente.lda@sapo.pt)
meu caro amigo zé acho que tem toda a razão que baixem os juros e que ponham o pais andar
 
 
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