O relatório sobre a estabilidade financeira do FMI aponta para perdas potenciais de 945 mil milhões de dólares, cerca de metade destas relacionadas directamente com o crédito à habitação nos EUA, aumentando a pressão sobre o sector bancário. No mesmo documento, esta organização defende uma atitude pró activa por parte dos Governantes que deverão preparar planos de acção no caso de novos problemas no sector financeiro, admitindo-se a possibilidade de se multiplicarem as instituições financeiras em apuros. Neste contexto, o FMI afirma que os riscos de maior instabilidade financeira são ainda muito elevados.
As previsões para a evolução da economia mundial apontam para um arrefecimento forte, se considerarmos que a média de crescimento desde 1980 é de 3.6% em 2008, seguida de uma recuperação gradual em 2009, ao contrário de expectativas que apontavam para uma recuperação acelerada. As previsões para o crescimento mundial (3.7% em 2008 e 3.8% em 2009) situam-se acima dos 3% (nível abaixo do qual se considera a existência de recessão) e da média de crescimento desde 1980 (3.6%) mas configuram uma acentuada e continuada desaceleração, fruto da manutenção de dificuldades no sistema financeiro e no sector imobiliário dos EUA a médio prazo, o que levará à retracção da procura e à manutenção de um elevado nível de incerteza. Mais concretamente, a maior economia mundial deverá crescer apenas 0.5% em 2008 e recuperar apenas marginalmente em 2009 apesar dos estímulos monetários e fiscais em curso, pesando fortemente na desaceleração do crescimento mundial. Simultaneamente, na zona euro o crescimento descerá abaixo do potencial (1.4% em 2008 e 1.2% em 2009) como resultado de impacto da crise no sector financeiro e no comércio externo, o que deverá conduzir à descida da inflação que se prevê que atinja o objectivo do BCE em 2009.
Evolução do PIB mundial
Neste contexto, também os países em desenvolvimento conhecerão uma desaceleração (crescendo como um todo 6.7% e 6.6%, respectivamente, em 2008 e 2009), não sendo de esperar uma descolagem destas economias na medida em que, apesar de até à data a maioria das economias emergentes estar a apresentar sinais de efectiva divergência devido à crescente integração na economia mundial e à prossecução de adequadas políticas de estabilização, a degradação da situação económica nos países desenvolvidos levará a diminuição das exportações e ao aumento das dificuldades em obter financiamento a nível internacional. Mais concretamente, a África Subsaariana deverá continuar a crescer acima dos 6% (6.6% em 2008 e 6.7% em 2009) e os únicos países ou agregados que viram as previsões de crescimento serem revistas em alta pelo FMI face a Janeiro foram o Brasil, a Rússia e o Médio Oriente.
Os riscos associados a estas previsões continuam, segundo o relatório apresentado, no sentido de uma maior desaceleração do que a apresentada, principalmente porque, na eventualidade de uma redução drástica na oferta de crédito, dar-se-á uma forte redução do consumo privado e do investimento, retraindo ainda mais o crescimento. Os analistas do FMI apontam para uma probabilidade de recessão global, ou seja, de crescimento abaixo de 3%, de 25% em 2008 e 2009.
Neste contexto, este organismo volta a frisar que, nos países em que existe margem para aumentar as despesas públicas, poderá ser necessário, não só deixar actuar os estabilizadores automáticos como impostos e prestações sociais associadas ao rendimento, mas também implementar políticas orçamentais expansionistas.
Quanto às previsões para Portugal, estas situam-se muito abaixo do crescimento perspectivado pelo Banco de Portugal (2% em 2008 e 2.3% em 2009), na medida em que o FMI perspectiva para este ano uma queda do crescimento face a 2007 (1.9%) de 0.6 pp e uma ligeira aceleração (+0.1 pp) em 2009. Comparando com as previsões para a zona euro, Portugal, ainda que marginalmente, e a Itália serão os únicos a crescer abaixo da média (1.4%) em 2008, no entanto, de 2008 para 2009 Portugal é das poucas economias na zona euro para as quais o FMI prevê uma aceleração do crescimento, o mesmo acontece somente para Irlanda, Luxemburgo e Chipre. Segundo este organismo, tanto a taxa de desemprego como a inflação em Portugal apresentarão uma tendência decrescente até 2009, atingindo nesse ano, respectivamente, 7.4% e 2%.
O Outlook Económico Mundial do FMI apresenta ainda 3 capítulos temáticos que foram divulgados no dia 3 de Abril. O capítulo reservado ao sector imobiliário aborda o aumento do impacto de variações elevadas nos preços das casas na economia e defende que a política monetária tenha em conta a sua evolução no processo de tomada de decisão. Outro dos capítulos publicados analisa os custos de minimizar as consequências das alterações climáticas no crescimento económico futuro apontando algumas soluções para maximizar os resultados dos esforços de contenção das emissões de CO2 a nível mundial. O último capítulo desta publicação, intitulado “globalização, preços das commodities e países em desenvolvimento”, centra-se no estudo do impacto da subida dos preços das commodities no aumento das exportações dos países em desenvolvimento defendendo que, mesmo perante um retrocesso nos preços em questão, deve continuar a assistir-se a um aumento da integração económica dos países em causa porque esta depende não só do fenómeno de melhoria dos termos de troca, mas também da maior liberalização do comércio mundial, entre outros.
Até ao final do semestre, espera-se a divulgação de projecções económicas pelos principais organismos nacionais e internacionais e será importante perceber se outras organizações acompanharão a forte revisão em baixa do FMI. Destacam-se as publicações de previsões pela Comissão Europeia, a 28 de Abril, e pela OCDE, no mês de Junho.
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