Mais do que analisar os números apresentados para a evolução do PIB, importa perceber quais os pressupostos que sustentam estas previsões. Para além da análise das perspectivas para a zona euro e para Portugal, destacam-se ainda as previsões para a economia espanhola pela elevada incerteza em torno da sua evolução e por ser uma das economias da zona euro cujas perspectivas de crescimento foram mais fortemente penalizadas pela actual conjuntura.
As principais condicionantes da revisão em baixa das previsões apresentadas, prendem-se essencialmente com 3 questões: o facto da turbulência nos mercados financeiros se apresentar mais profunda, alargada e duradoura do que fora antecipado; a deterioração significativa das perspectivas de evolução da economia americana e o alargamento da crise do sector imobiliário que ganhou expressão em alguns paÃses da zona euro nos últimos meses. De facto, a crise financeira pode ter um impacto desfasado contaminando a economia real através, não só da maior dificuldade em obter crédito, sendo importante realçar que os empréstimos tem tendência a reagir com um desfasamento significativo à s alterações nas condições exigidas, mas também pela deterioração do ambiente externo e da confiança dos consumidores e dos empresários que deverá tardar em recuperar os nÃveis pré-crise. Apesar da revisão em baixa do crescimento na zona euro, a Comissão continua a defender uma relativa descolagem do cenário americano, na medida em que o crescimento do PIB per capita nos EUA deverá ser nulo enquanto que na zona euro se perspectiva um crescimento deste indicador de 1.4% e 1.5% respectivamente em 2008 e 2009. Esta relativa resiliência é justificada com base na melhoria dos fundamentos das economias da zona euro nos últimos anos, espelhada em finanças públicas e balanças correntes mais equilibradas, assim como famÃlias e empresas que conheceram uma melhoria da sua situação financeira e um momento muito positivo no mercado de trabalho.
No que toca à evolução do PIB na zona euro, a confirmarem-se as previsões avançadas, a dispersão das taxas de crescimento dos paÃses membros será menor do que o habitual. Quanto ao contributo das diferentes componentes, o investimento deverá desacelerar crescendo em 2008 e 2009, respectivamente 2% e 1.2% devido à queda no investimento em construção de habitações. Também o consumo deverá desacelerar no perÃodo em análise, na medida em que, os indicadores de confiança dos consumidores estão em nÃveis baixos e devem continuar a diminuir, para além de que a escalada dos preços da matérias primas e da energia deverá continuar a contribuir para a degradação do poder de compra das famÃlias. As exportações tenderão, também, a ressentir-se, crescendo apenas 4.4% e 4% em 2008 e 2009, face a 6.1% em 2007, por um lado, pela desfavorável evolução da taxa de câmbio, assim como pela redução da procura mundial. Todos estes factores levarão o crescimento na zona euro a descer abaixo do potencial.
O crescimento do emprego deve diminuir significativamente em linha com os dados já disponÃveis para 2008 relativamente à s expectativas de emprego. O mÃnimo da taxa de desemprego deverá ser atingido em 2008 (7.2%), sendo esperada uma subida de apenas 1p.p. em 2009. Quanto aos salários, os aumentos deverão ser quase completamente anulados pela elevada inflação não se esperando melhorias significativas nos salários reais.
A inflação média para 2008 foi revista em alta em 1 p.p. relativamente à s previsões de Outono, defendendo a Comissão que esta se situará em 3.2% em 2008, devido à subida dos preços de alimentação e energia e desacelerará em 2009 para 2.2%. Neste relatório a Comissão considera ainda que a dispersão dos nÃveis de inflação na Europa aumentará, facto que pode dificultar a prossecução de uma polÃtica monetária comum que assegure os interesses de todos os paÃses membros da zona euro.
Os riscos negativos associados a este cenário são elevados estando relacionados com a possibilidade de recessão nos EUA, da intensificação da turbulência nos mercados financeiros e de continuação da tendência de subida dos preços das commodities. Do lado positivo, destacam-se os riscos de uma retoma mais rápida dos EUA, assim como de uma maior resiliência dos mercados emergentes à crise. Segundo os cálculos da Comissão, e tendo em conta um intervalo de confiança de 90%, a materialização de todos os riscos negativos levaria a menos 1 p.p. no crescimento da economia da zona euro, enquanto que, considerando o cenário mais positivo, o PIB poderia crescer mais 0.9 p.p. do que no cenário base.
Para Portugal, a Comissão estima um crescimento de 1.7% e 1.6% em 2008 e 2009, o que significa uma desaceleração da actividade económica justificada, assim como na zona euro como um todo, pela menor procura nos principais destinos de exportação, pela turbulência nos mercados financeiros e pela subida dos preços da energia e alimentação. Neste contexto adverso, o investimento não deverá manter a tendência de elevado crescimento de 2007 perspectivando-se taxas de crescimento deste agregado de 2.9% e 1.4% em 2008 e 2009. O consumo privado também deverá desacelerar, embora apenas em 2008, e as exportações lÃquidas deverão aumentar ao longo do perÃodo em análise, prevendo-se que a taxa de crescimento das importações continue em nÃveis inferiores à taxa de crescimento das exportações. A inflação e a taxa de desemprego deverão apresentar variações menos acentuadas do que na zona euro como um todo, apesar de, no caso da inflação a tendência ser também de que atinja um valor máximo em 2008. Um crescimento abaixo da média dos principais parceiros comerciais dos custos unitários do trabalho e a uma maior diversificação dos mercados de exportação são factores apontados pela Comissão como possÃveis contributos para resultados mais positivos do que os do cenário traçado em termos de evolução das exportações liquidas portuguesas.
Espanha foi um dos paÃses que viu as previsões para o crescimento do PIB para 2008 ser revisto mais acentuadamente, de 2.7% para 2.2%, pela Comissão Europeia, situação partilhada com o Luxemburgo, a Itália e a Irlanda. Segundo a Comissão, a economia espanhola irá ressentir-se fortemente da actual crise financeira mundial, na medida em que, se perspectiva uma estagnação do consumo privado acompanhada da contracção do investimento na construção de habitações, perante um ajustamento estrutural no sector imobiliário que se encontrava significativamente sobreaquecido. O investimento total deverá aumentar apenas 1.4% em 2008 para no ano seguinte se reduzir em 2.5%, enquanto que o consumo privado deverá desacelerar para 2.2% e 1.8%, respectivamente, em 2008 e 2009. As exportações lÃquidas terão um contributo negativo para o crescimento em 2008, situação que será revertida no ano seguinte. Assim, a economia deverá desacelerar de 2.2% este ano para 1.8% em 2009, prevendo-se uma deterioração do mercado de trabalho, com uma evolução crescente da taxa de desemprego que passará de 8.3% em 2007, para 10.6%, em 2009, assim como uma desaceleração da inflação que atingirá os 3.8% este ano e diminuirá para 2.6% em 2009, reduzindo-se o diferencial positivo face à evolução dos preços na zona euro.
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