Edição Impressa - Destaque

Crise na economia portuguesa 2008-05-16 00:05

Crise trava Portugal

Economia diverge pelo sétimo ano face à zona euro. Governo pede mais investimento.

Luís Reis Ribeiro

Este ano, a crise financeira e dos mercados das matérias-primas irá roubar, no mínimo, um valor superior a mil milhões de euros à economia portuguesa. Este é o número que decorre do corte significativo da taxa de crescimento real para 2008 ontem anunciado pelo ministro das Finanças, Fernando Teixeira dos Santos. Portugal vai crescer menos sete décimas do que previu o Governo em Outubro, no Orçamento do Estado, devendo avançar apenas 1,5%.

A nova previsão para 2008 – entre os 1,3% do FMI e os 1,7% da Comissão Europeia – significa que a actividade económica vai travar 0,3 pontos percentuais face aos 1,8% do ano passado. É o maior abrandamento desde 2005, ano em que a economia cresceu apenas 0,9%. Quer também dizer que, fazendo fé nas previsões ontem publicadas pelo BCE e pela CE para a zona euro (1,6% e 1,7%, respectivamente), em 2008 Portugal divergirá de novo face aos parceiros da moeda única no ritmo de expansão. Serão sete anos consecutivos de divergência.

Os especialistas ouvidos pelo Diário Económico frisam que aumentou a probabilidade de a economia entrar em recessão e alertam que, a este ritmo, o desemprego dificilmente baixará como diz o Executivo. Teixeira dos Santos está visivelmente preocupado com o caminho do investimento privado este ano, a variável mais decisiva para a desejada criação de emprego. Segundo o governante esta terá começado a abrandar no primeiro trimestre, ao contrário do que se previa. Por isso convidou os empresários a não desmobilizarem nesse esforço e a avançarem rapidamente com os projectos anunciados, garantindo que o investimento público, ainda que menor, cumprirá a sua parte. O Governo prevê agora uma expansão de 3,5% no investimento, menos meia décima face à projecção anterior. Ontem, na Venezuela, o ministro das Obras Públicas, Mário Lino, enfatizou a importância do investimento, dizendo que as infrastruturas “poderão ser uma das soluções para incentivar o crescimento económico”. E disse mais: o Governo “poderá voltar a rever em alta o PIB até ao final de 2008, devido aos efeitos da concessão da Grande Lisboa, do Túnel do Marão e do Nó de Alcântara”.

Ângelo Correia, da Fomentinvest, uma empresa da área da energia e ambiente, “devolve” o convite do ministro das Finanças aos empresários, argumentando que “é cada vez mais difícil investir em Portugal”. Filipe Soares Franco, que lidera a Opca, recebeu bem a mensagem de Teixeira dos Santos, defendendo que o investimento em infra-estruturas “é vital para que a economia se desenvolva”. Henrique Neto, da Iberomoldes, diz que o investimento em construção “é a solução fácil” que não resolve os problemas estruturais do país.

“Julgo que o investimento acabará por desacelerar em 2008”, afirma Carlos Andrade, economista-chefe do BES, para quem há outros bloqueios que ajudam a explicar o arrefecimento. “A estagnação do consumo, o abrandamento da maior parte da procura dirigida às nossas exportações, a travagem da economia espanhola.” Paula Carvalho, economista do BPI, sublinha que “o investimento responde muito às perspectivas da procura que não são muito brilhantes, nem internamente nem lá fora, como demonstra o caso de Espanha”. Sem investimento suficiente e a crescer 1,5%, os economistas alertam que o desemprego não irá descer. “Estabiliza nos níveis actuais, com tendência até para subir”, afirma João César das Neves, professor de Economia da Católica.

Ontem o INE mostrou que os efeitos da crise mundial, que começou no mercado das taxas de juro em Agosto chegaram a Portugal. No primeiro trimestre, o crescimento da economia foi de 0,7%, abaixo do previsto pelos analistas, que apontavam para 1,7%. É a maior desaceleração homóloga dos últimos três anos. Em cadeia, o PIB sofreu uma contracção de 0,2%, a maior desde 2005. Se cair de novo no segundo trimestre a economia entrará em recessão técnica, cenário que os economistas não excluem. “A quebra trimestral não é dramática, mas vem provar que a economia portuguesa está em dificuldades. Sabendo o que já se sabe da dinâmica das economias mais desenvolvidas é provável que a situação não melhore no próximo trimestre. Portugal carrega problemas que já vêm de trás e que agora começam a emergir”, diz César das Neves. Paula Carvalho diz que “caso o abrandamento venha do lado da procura interna então o risco de recessão sobe significativamente”. As contas nacionais detalhadas serão divulgadas pelo INE no próximo dia 9 de Junho.


Como chegámos até aqui

Crise do ‘subprime’ fez subir juros sem que o BCE mexesse nas taxas
No início da crise, em Agosto, apostava-se que o ‘subprime’ seria um episódio breve de turbulência na liquidez dos bancos e fundos. Não foi. Dez meses e milhares de milhões de euros em injecções de liquidez depois, o mercado das taxas de juro ainda não normalizou. Portugal, um dos países mais endividados do euro, portanto mais exposto às oscilações dos juros, foi apanhado na curva e agora paga a factura com menos consumo e investimento.

BCE recusa descer taxas de juro por causa dos riscos para a inflação
Os especialistas observam que a crise mundial não é como as outras pois para além da convulsão financeira, têm associadas outras duas situações de choque – o petrolífero e o alimentar – que fazem subir a inflação, mesmo com as economias em abrandamento e a consumir menos. Portugal pouco ou nada pode fazer no curto prazo para fugir a este cenário. Vai ter de viver com os juros que o BCE achar mais adequados para toda a zona euro.

Euro deixa de proteger a economia com petróleo nos 115,5 dólares
Em 2007, o euro evitou que o choque petrolífero contagiasse a Europa. Em dólares, a subida média foi de quase 10%, em euros o preço do barril praticamente não mexeu. Para este ano, a situação é mais grave. Os mercados dizem que os factores que levaram à subida da moeda única estão todos descontados, pelo que em 2008, a subida do barril será superior a 20%, se o petróleo rondar os 101 dólares. O Governo diz que será mais: 115,5 dólares.

Crise alimentar pesa mais no bolso dos portugueses porque são mais pobres
Desde a fundação da zona euro, há mais de nove anos, que os europeus não experimentavam uma pressão tão alta sobre o poder de compra. Os portugueses, por serem os mais pobres da zona euro (PIB per capita), gastam mais do que a média europeia em comida. O país importa cada vez mais alimentos para satisfazer a procura e compensar a falta de produção. Os pedidos de ajuda das famílias não páram se subir e há já quem deixe de pagar a renda da casa para poder comer.

Endividamento recorde é uma das maiores fragilidades da economia
Segundo o Banco de Portugal, as famílias devem um total de 130 mil milhões de euros aos bancos (80% do PIB). Destes quase 11% vão para consumo, o valor mais elevado dos últimos quatro anos, com um ritmo de expansão próximo de 12%. Os economistas acreditam que o aumento forte e persistente do crédito ao consumo (mais fácil de contrair) nos últimos anos esconde a pressão cada vez maior que existe sobre os orçamentos familiares.


Europa ainda acelera
Enquanto Portugal regrede, a economia da zona euro acelera acima da expectativa, animada por alguma exuberância registada na economia alemã, que registou a maior subida inter-trimestral (1,5%) dos últimos 12 anos. Porém, indicadores avançados e observadores vêem aqui um sinal de resistência à crise – mais do que uma retoma. O Eurostat revelou ontem um aumento do PIB na zona euro de 0,7%, quase o dobro do trimestre passado, bem acima das estimativas da generalidade dos analistas e dos 0,1% registados nos Estados Unidos, onde está o epicentro da crise do crédito. O presidente do FMI, Dominque Strauss- -Khan, disse ontem em Bruxelas que “o pior da crise em termos da correcção dos balanços de instituições financeiras já passou, sobretudo nos Estados Unidos”, mas as suas “consequências na economia real ainda não passaram”. “Os optimistas dizem que durará até fim de 2008, os pessimistas falam em fim de 2009”, afirmou.

Comentários
 
p
e as garantias que são sempre muito pouco promissoras.
 
Antunes
Os portugueses estão individados, porque para ter uma casa tem de se endividar devido ao estado não cumprir o que esta escrito na constituição portuguesa relativamente há habitação, o estado ao longo do anos tem asobiado para o lado e vira a cabeça relativamente a este problema que deveria ser ele a resolve-lo e não faz.
 
Augusto
Um verdadeiro retrato da realidade da economia portuguesa...fraquinha, pequena, débil, retardada, super dependente. Uma corrente de ar um bocado mais fresco e constipa-se...
 
LOPES CARLOS
1.Com a regularidade dum relógio suiço prosseguem-se as "quebras de expectativas" lusas. Não vale a pena pelejar por mais ou menos algumas décimas...sempre sempre a voar baixinho. 2.Toda a gente sabe quais são os estrangulamentos que impedem o nosso Desenvolvimento.Ninguém endireitará a sombra da vara torta.Todos sabem as consequencias para os próximos anos e para os Jovens da pesada dívida que fomos edificando. 3.Como não se fez atempadamente o reajustamento necessário,será o DESEMPREGO que vai" reajustar" a economia. 4.Em vêz do discurso demagógico contra os "tremendistas"e os "pessimistas", ou os ataques a alguns bodes expiatórios de predilecção( sobra sempre para os economistas e os M.Fin.), é necessário MUDAR DE VIDA ! 5.Com os aumentos previsíveis do Petróleo, dos Alimentos e a reorganização do agro-alimentar, importa acelerar os diferentes processos de mudança para evitar uma crise social séria. 6.O aumento da Emigração dos nossos Jovens para o Estrangeiro , a "Vitória" do número de Mortos sobre Nascimentos em 2007,a desertificação do nosso Interior,deviam incitar à aceleração da reforma dos nossos sub-sistemas. Todavia,alguns persistem em mais do mesmo: mais alcatrão, mais rotundas, mais FOOTBALL...
 
Coup d'État
Investir como? Os Bancos fecharam a torneira porque os Americanos não pagaram! Agora eles têm planos de ajuda e taxas de juro mais baixas, e quem se "lixa" somos nós...
 
Filipe Barreiros (filipeedbarreiros@gmail.com)
"enfatizou a importância do investimento, dizendo que as infrastruturas “poderão ser uma das soluções para incentivar o crescimento económico”. E disse mais: o Governo “poderá voltar a rever em alta o PIB até ao final de 2008, devido aos efeitos da concessão da Grande Lisboa, do Túnel do Marão e do Nó de Alcântara”." Investimento em betão ? Veja lá que essa foi a receita do agora estimado P.R. ignorando tudo o resto (necessidade básica à 18 anos neste país) mas que agora não deve ser grande solução excepto talvez aumentar o défice externo. Vai repetir a receita ? E numa altura em que em termos de infraestruturas estamos algo razoáveis ?
 
Fernando Ferreira
O Governo e o ministro das finanças mostram uma total ignorancia do país que pretendem governar, dis que está visivelmente preocupado com o investimento privado, mas não foi ele, com as suas políticas sacadoras de impostos à classe média e media/baixa, que criou esta situação anémica? Se os mercado internacionais não recebem os nossos produtos, os empresários vão investir para quê, o consumo interno, onde as pessoas não tem poder de compra, pois o governo,com impostos, e os combustíveis puseram a generalidade do povo de tanga, O Sr.Ministro das finanças sacou a mais em IRS em 2007 aos reformados, qualquer coisa como cento e oitenenta milhões de euros, ora este dinheiro deixou de ir para o consumo, logo a economia sofre. Não é preciso tirar nenhum curso para perceber isto.
 
Zeze
quero ir morar em portugal mas acho q o momento esta inoportuno o que vcs acham??
 
 
envie o seu comentário
 
nome:
email (opcional):
comentário:
Os comentários enviados serão publicados após aprovação. O DE reserva-se o direito de não publicar comentários considerados como ofensivos ou sem ligação alguma ao artigo em questão

Publicidade

Edição Impressa (em PDF)



Versão PDF: 8,64 MB

Clique na imagem acima para aceder ao DE
em formato PDF.

Apenas por 1 Euro poderá descarregar
directamente para o seu computador
a edição integral do Diário Económico.

Envie um sms com a palavra ‘depdf’
para o número 4434 para obter a sua password
e nome de utilizador.

Venda válida apenas para linhas telefónicas portuguesas.

[an error occurred while processing this directive]