Crise financeira mundial 2008-10-10 00:05
Trichet disponibiliza empréstimos ilimitados
Corte dos juros não conseguiu atingir um reflexo positivo na confiança. Mas o BCE ainda tem cartas na manga.
Margarida Peixoto
Em 24 horas o Banco Central Europeu (BCE) inverteu radicalmente a sua política. Depois de ter cortado os juros em 0,5 pontos percentuais, ontem colocou à disposição dos bancos crédito ilimitado à nova taxa de juros de 3,75%. Depois da oferta, 99 bancos pediram financiamento, num total de 24,7 mil milhões de euros. Jean-Claude Trichet dá mais uma prova ao mercado de que está apostado em fazer tudo para salvar o sistema financeiro da crise.
“Esta foi uma mudança radical na política do BCE e põe em causa a comunicação dos últimos seis meses”, sublinha Jacques Cailloux, economista-chefe para a zona euro do Royal Bank of Scotland, ao Diário Económico. “É verdade que é uma resposta a uma situação excepcional, mas a comunicação do banco nos últimos meses poderia ter sido mais bem orientada”, critica o economista, explicando que teria sido mais positivo se o mercado tivesse sido bem informado.
O BCE, a par de outros bancos centrais – como a Reserva Federal norte-americana e o Banco de Inglaterra – está numa luta árdua por restabelecer a confiança nos mercados financeiros, que caíram a pique e elevaram os custos de financiamento para valores recorde. A situação é particularmente preocupante na Europa, já que os ministros das Finanças não conseguiram ainda chegar a um acordo comum de resgate dos bancos europeus.
Na quarta-feira o BCE e mais cinco bancos centrais – incluindo a Fed e o Banco de Inglaterra – baixaram os juros em 0,5 pontos percentuais, numa acção de coordenação única na história dos mercados financeiros. Pela primeira vez ao fim de um ano de crise, a política monetária dos dois lados do Atlântico – zona euro e Estados Unidos – segue a mesma tendência.
A determinação de Jean-Claude Trichet em agir é agora completamente nova: questionado pela Bloomberg sobre se o corte de juros foi uma acção sem exemplo, Trichet respondeu que “não diria isso”. E acrescentou: “Digo que faremos sempre tudo o que for necessário”.
Perante a nova postura do BCE, os economistas esperam um novo corte de juros antes do final do ano. “Esperamos um corte de 0,5 pontos percentuais na reunião de seis de Novembro”, antecipa o economista Julian Callow, do Barclays Capital, acrescentando que “este corte deverá acontecer depois de uma descida de juros da mesma dimensão por parte da Fed”, que se reúne na semana anterior.
Com armas para agir, ou de mãos atadas?
Mas o facto de o corte coordenado de juros não ter sido capaz de evitar que as bolsas continuem a cair significa que os bancos centrais estão de mãos atadas? “É verdade que o resultado da acção foi um pouco decepcionante”, responde Cary Leahey, economista da Decision Economics. “Mas não podemos daí concluir que não há nada que os bancos centrais possam fazer para intervir nos mercados”, garante, explicando que “com tempo, e com mais descidas de juros e injecção de capital, os efeitos vão começar a sentir-se”.
Neste aspecto, o Banco Central Europeu até tem mais margem de manobra para agir do que a Reserva Federal, já que os juros na zona euro ainda estão em 3,75% – confortavelmente longe dos zero – enquanto os juros nos Estados Unidos já estão em 1,5%. “A Fed agiu demasiado cedo”, defende Dario Perkins, economista do ABN Amro. “Agora já não tem grande margem para cortes com forte impacto psicológico”, justifica.
Os economistas sublinham que o impacto completo de um corte de juros só se faz sentir ao fim de 18 meses. Mas, acrescenta Ivo Banaco, “nesta altura, tão importante como as medidas financeiras, são as psicológicas”. O economista do Espírito Santo Research, sublinha que “quanto mais globais e concertadas forem as acções dos bancos, e quanto mais passarem a mensagem de que estão dispostos a tudo para salvar o sistema, mais rapidamente se conseguirá devolver a confiança aos agentes”.
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