Edição Impressa - Economia

Banco Central Europeu 2008-09-05 00:05

Taxas de juro na Europa não descem este ano

O Banco Central Europeu espera uma subida mais forte dos preços. Para combater a inflação, não mexe nos juros.

Margarida Peixoto

Jean-Claude Trichet estará disposto a arriscar uma pequena recessão na Europa, se tal for necessário para controlar a inflação. Esta é a leitura que os economistas contactados pelo Diário Económico fizeram das palavras do presidente do Banco Central Europeu (BCE), ontem, depois de ter anunciado a manutenção dos juros em 4,25% – o valor mais alto dos últimos sete anos. A expectativa é que os juros não se alterem até meados de 2009.

“Sim, eles deixariam a Europa entrar numa pequena recessão se a inflação continuasse fora de controlo”, defende Steve Webster, economista da 4Cast. E acrescenta: “Se a inflação continuasse elevada e a Europa entrasse em recessão, o BCE continuaria a não cortar os juros”.

“O BCE só tem um objectivo, que é controlar a inflação. Terá de ignorar o abrandamento económico se isso não trouxer a inflação para níveis mais baixos”, explica Chris Williamson, economista-chefe da Markit Economics.

Ontem a decisão de não mexer nos juros não foi novidade para os economistas. Mas o discurso focado na inflação, mesmo tendo apresentado previsões de crescimento revistas em baixa, permitiu aos economistas perceber que o BCE não terá margem para descer os juros tão cedo. Mesmo que o crescimento económico continue a abrandar.

“Em certa medida é verdade que o BCE está disposto a deixar a Europa entrar em recessão”, confirma James Nixon, economista da Société Général. “O impacto negativo da inflação elevada terá de ser aceite. Se tentamos evitar esse impacto através dos juros, teremos ainda mais inflação”, explica o economista.

A descida de juros actua como um incentivo ao consumo, já que deixa mais dinheiro disponível do lado dos consumidores. Se a procura aumentar, os preços tendem a subir, o que significará mais inflação. Por outro lado, Trichet quer evitar que as expectativas de inflação elevada se mantenham, para que os empregadores resistam à actualização de salários, evitando desta forma efeitos inflacionistas de segunda ordem.

Em Agosto a inflação na zona euro foi de 3,8%, praticamente o dobro do limite permitido pelo mandato único do BCE (2%). “A mensagem de hoje foi claramente que a inflação não estará abaixo do limite máximo antes de meados de 2010. E isto mostra que não há espaço para descidas, mesmo que a economia esteja perto da recessão”, reforça James Nixon. “Teríamos de ver a Europa entrar em recessão, e não apenas estagnar, para assistir a um corte de juros nos próximos meses”, acrescenta Dario Perkins, economista da ABN Amro.

A maioria dos economistas prevê que o BCE não mexa nos juros até ao final do ano e que só em meados de 2009 poderá tomar essa decisão. “O petróleo já está a dar algum alívio e os preços poderão recuar antes do que o BCE está à espera. A inflação deverá estar mais baixa no próximo ano, o que permitirá cortar os juros”, defende Steve Webster.


Banco de Inglaterra mantém taxas de juro nos 5%
O Banco de Inglaterra (BoE) anunciou ontem a manutenção da sua taxa de juro de referência nos 5%, para controlar a inflação que acelera ao ritmo mais elevado da última década e dificulta a resposta da autoridade monetária ao forte risco de recessão que o país enfrenta. O próprio governador do BoE já indicou que a recessão é possível, mas o banco não tem muito espaço para cortar juros, dada a evolução das taxas de juro. Apesar da baixa recente dos preços das matérias-primas, e em particular do petróleo, a inflação continua ser a principal preocupação do BoE.

Crescimento mundial poderá cair para  1%
O crescimento mundial poderá cair para entre 1 e 1,5 % em 2009, ou seja, uma diminuição para metade em relação às projecções para o conjunto de 2008, alertou ontem a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (CNUCED). “Se quiserem conhecer a minha melhor estimativa, então com efeito o crescimento mundial vai cair de 2,9%, em 2008, para qualquer coisa próxima de 1 a 1,5 % em 2009”, declarou o economista-chefe da CNUCED, Heiner Flassbeck. No relatório sobre o comércio e o desenvolvimento 2008, a CNUCED julga “muito provável que a economia mundial registe um abrandamento marcado e prolongado” e adverte contra políticas monetárias demasiado restritivas. A situação poderá tornar-se ainda mais delicada se os países cujas moedas apresentam défices correntes consideráveis forem levados a desvalorizar”.


O que dizem os economistas sobre os juros, o crescimento e a inflação

1 - James Nixon Economista da Société Général
“A inflação não estará abaixo do limite do BCE até meados de 2010. E isto é uma mensagem clara de que não há espaço para descer os juros. Em certa medida é verdade que o BCE está disposto a deixar a Europa entrar em recessão se a inflação continuar elevada. Se tentarmos evitar esse impacto [da inflação] com os juros, teremos mais inflação.”

2 - Chris Williamson Economista-chefe da Markit Economics
“O BCE terá de esperar para cortar os juros e essa será a decisão, independentemente do abrandamento económico. O BCE só tem um objectivo, que é controlar a inflação. Terá de ignorar o abrandamento económico se isso não trouxer a inflação para níveis mais baixos. O BCE é uma instituição recente e quer manter a credibilidade.”

3 - Steve webster Economista da 4Cast
“Sim, eles deixariam a Europa entrar numa pequena recessão se a inflação continuasse fora de controlo. Se a inflação continuasse elevada e a Europa entrasse em recessão, o BCE continuaria a não cortar os juros. Mas o petróleo já está a dar algum alívio e os preços poderão recuar antes do que o BCE está à espera. Prevejo um corte para o ano.”

4 - Dario Perkins Economista da ABN Amro
“Teríamos de ver a Europa entrar em recessão, e não apenas estagnar, para assistir a um corte de juros. O BCE está a olhar além deste episódio de forte abrandamento na zona euro e está a pensar no médio prazo. A inflação estará acima do limite durante todo o próximo ano e o BCE tem de garantir que consegue fazê-la descer.”

5 - Howard Archer Economista-chefe da Global Insight
“O BCE fará o que achar necessário para conter a inflação. Poderá estar disponível para arriscar um pequeno episódio recessivo, mas mais do que isso seria um grande problema. A Inflação na zona euro está praticamente no dobro do limite, apesar do abrandamento económico, e o BCE está sobretudo preocupado que o aumento dos preços suba os salários.”

6 - Carlos Andrade Economista-chefe do ESResearch
“Vamos assistir a uma alteração do discurso do Banco Central Europeu no final do ano, já que a desaceleração da economia vai ajudar a controlar a inflação assim como a descida dos preços das matérias-primas, que já se está a verificar. No entanto, o BCE só deverá descer os juros já em 2009, mesmo  com o fraco desempenho das economias.”

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Vamos assistir a uma pequena melhoria economia/financeira a partir do mes de Novembro merce da baixa dos combustiveis e das taxas de juro associadas ao aumento dos indices bolsistas
 
 
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