Editado em Itália o livro promete revelar os segredos mais obscuros do maior motor de busca norte-americano 2006-09-15 06:30
Piratas informáticos revelam o lado negro do Google
E se houvesse uma face obscura no motor de busca mais popular do mundo? E se tudo aquilo que sabemos sobre o Google não passar da ponta do iceberg? Uma notícia encontrada por acaso no site do conceituado jornal La Republica chama a atenção.
Ana Rita Guerra
Fala de um livro sobre o Google que sairá no final do ano, em Itália, escrito por um grupo de ‘hackers’ (piratas informáticos).
Aguçada a curiosidade, procuro mais informação e acedo à página de notícias…do Google. Nada. Só nos sites italianos há referências a este livro, obra de uma comunidade que todos os anos se encontra para discutir a tecnologia e a sua utilização.
Segundo o que consta na apresentação prévia do livro, a cargo da editora Feltrinelli (uma das maiores em Itália), o objectivo é lançar a discussão sobre os méritos e segredos do Google, que domina o mercado e se posiciona como um dos mais inovadores da indústria.
Aquilo que está disponível acerca do livro “The Dark Side of Google” dá que pensar, para dizer o mínimo. Era isso que pretendiam os responsáveis pelo “Hackmeeting” nesta nona edição do evento: deixar os cibernautas a questionar se aquilo que pensam sobre o Google corresponde mesmo à realidade.
Um monopólio chamado Google
O tema da privacidade dos cibernautas tem consumido dezenas de páginas e discussões nos últimos meses, devido a episódios constrangedores envolvendo fornecedores de serviço, como a AOL. O mundo acorda para uma realidade em que tudo o que faz na Internet pode ser recuperado, analisado, até usado contra si.
E empresas como o Google mantêm um pouco nebulosas as suas políticas de privacidade, embora tenham cuidado para não quebrar leis instituídas. Esta é a premissa dos ‘hackers’ que questionam a idoneidade do Google e assim pretendem atacar aquilo que chamam de “tecnocracia”. Nos últimos anos, este motor tornou-se um dos principais pontos de acesso à rede, com uma interface reconhecida em qualquer lugar. Em 2006, passou a existir no dicionário anglo-saxónico o verbo “to google”, sancionando a sua utilização coloquial como sinónimo de “procurar”. Muitos aderiram ao Gmail, ao Google Maps, ao Google Earth…
Tudo isto, em boa parte, devido à necessidade de coisas simples. Os utilizadores não queriam páginas de busca cheias de ruído, confusas, cheias de janelas publicitárias. O Google foi magistral a identificar esta necessidade, conseguindo encher as páginas de publicidade sem incomodar os cibernautas.
Estamos na face de um colosso, como lhe chamam os ‘hackers’ italianos, acrescentando que se trata de “um sistema incrivelmente invasivo da gestão do conhecimento, composto por estratégias de marketing agressivo”.
O campo que se preenche com uma palavra-chave, dizem, é uma porta aberta, um filtro que parece transparente mas controla e direcciona os cibernautas para a informação por ele seleccionada.
De acordo com as contas destes piratas informáticos, o Google omite nos seus resultados entre 20% a 30% de páginas relevantes, embora nos dê a sensação de que é a busca mais completa que podemos obter. O que o motor oferece é a possibilidade de encontrar nas primeiras páginas o resultado procurado. Isto é verdade para o utilizador médio, mas não para todos. Portanto, fica a ideia de que aquilo que se procura é exactamente o que o Google oferece. “Não é assim”, concluem os ‘hackers’, dizendo que não é o motor de busca que se adequa ao cibernauta, mas o cibernauta que se adequa aos resultados médios por ele oferecidos.
Privacidade ou engano
O que se esconde no lado negro do Google? A eventual utilização massiva e constante de dados dos utilizadores, para proveito próprio ou para vender a terceiros. Os ‘hackers’ acreditam que as informações providenciadas são utilizadas além do que é revelado. E o Google nem precisa de associar os dados à pessoa x ou y, abstendo-se de violar a privacidade do utilizador. Não lhe interessa que um texto tenha sido escrito por este ou aquele cibernauta, mas a quantidade de vezes que usou o mesmo programa para isso.
“Deste modo, não viola legalmente qualquer privacidade individual, mas sim a colectiva, que não é defendida pela lei”, argumentam os autores do livro, lembrando que o governo norte-americano já solicitou várias vezes a consulta da base de dados do Google, mas nunca conseguiu ser bem-sucedido.
Um dos exemplos dado é o ‘Google Desktop Search’, uma ferramenta que o utilizador pode instalar gratuitamente no seu PC, para o ajudar a localizar qualquer tipo de ficheiros. Prática, de facto, mas também um canal privilegiado para que o Google conheça todos os hábitos e gostos dos utilizadores.
Nas 140 páginas do livro será possível encontrar reflexões acerca do motor, desenvolvido nos anos noventa por Larry Page e Sergey Brin. As respostas ao seu domínio poderão estar nas redes “peer-to-peer”, segundo os ‘hackers’, para quem o modelo de negócio da empresa é frágil. “Um colosso com pés de barro”, rematam.
‘Hackers’ com consciência
Dois dias antes do evento, a comunidade de ‘hackers’ ainda não sabia onde iria decorrer o Hackmeeting deste ano. Acabou por acontecer em instalações abandonadas na cidade de Parma. Nos primeiros três dias de Setembro, a comunidade liderou então vários seminários e debates para “promover a utilização crítica e consciente da rede e das novas tecnologias, por oposição à sua deriva comercial e repressiva”. As directrizes e actividades do grupo estão expressas no site www.hackmeeting.org. A participação neste tipo de eventos é totalmente gratuita e aberta mesmo a quem não percebe nada sobre o assunto. Este ano, o encontro foi subordinado ao tema “Building a different net”.