ANáLISE / Os dois lados do País e os dois lados da escolha de Sócrates 2008-05-16 00:05
A Venezuela que se vê
Nos três dias que passei em Caracas andei por todo o lado, li todos os jornais que quis – dos mais críticos aos mais benevolentes – falei com quem entendi, comprei livros críticos de Hugo Chávez e do seu regime de pinceladas cubanas.
Não me pareceu, em momento algum, que as pessoas tivessem medo de expressar a sua opinião contra ou a favor do regime, crítica ou elogiosa, boa ou má. Na realidade, ouvi de tudo e a maioria das pessoas pareceu-me, aliás, desinteressada da política e pouco informada sobre a actualidade nacional e internacional. Se Hugo Chávez quer impor um regime comunista, se é para lá que ele caminha a passos largos, os sinais não são evidentes para um observador apressado, embora haja indícios preocupantes. Claro, posso estar completamente errado. As generalizações são perigosas, omitem os detalhes, não valorizam muitas vezes o essencial. Vamos, então, por partes.
Primeiro, a retórica comunista. A retórica comunista transborda dos discursos inflamados de Chávez. Os jornais noticiam as nacionalizações em sectores estruturantes. A propriedade privada já esteve mais segura. Os trabalhadores nomeiam representantes para os conselhos de administração das empresas públicas. As grandes petrolíferas internacionais são forçadas a renegociar contratos, a aceitar parcerias e ceder à vontade musculada de Chávez. A oposição acusa o governo de condicionar o sistema judicial e de procurar anular a liberdade de imprensa. Os jornalistas têm medo. Apesar de os hotéis terem bastantes hóspedes em viagem de negócios e de as lojas venderem produtos de todo o mundo, há uma atmosfera estranha no ar. Sente-se alguma desconfiança, o receio do que pode estar a caminho.
Em contrapartida, os defensores do regime -- escolhido pelos venezuelanos em duas eleições democráticas muito contestadas – sublinham os aspectos positivos trazidos pelo chavismo. Por exemplo, a redução da pobreza, embora ela ainda seja chocante e sufoque Caracas. Mas há mais: o início do fim do domínio americano que explorava o petróleo, guardando para si a maior fatia do bolo. A existência de médicos – na maioria cubanos – para assistir os mais pobres. As políticas sociais para alimentar os desfavorecidos. O controlo dos preços. A redistribuição de terras, o desenvolvimento de cooperativas. Resumidamente, a utilização do dinheiro do petróleo – a Venezuela é o sexto maior exportador do mundo – para políticas assistencialistas que criam uma nova classe de pobres subsidiodependentes. A engenharia social é evidente e deliberada. Não é por acaso que a PDVSA, a companhia estatal de petróleos da Venezuela, é o maior empregador do país. Chávez faz dela um prolongamento do governo. É o dinheiro ao serviço da ideologia.
Dito isto, a pergunta evidente: o que faz Portugal a negociar com um país assim? O que faz José Sócrates em Caracas de braço dado com um antigo coronel de pára-quedistas que tentou, sem sorte, um golpe de Estado em 1992? Para Sócrates não há grandes dúvidas ou inquietações metafísicas. Por um lado, os 600 mil portugueses são motivo de sobra para aproximar os dois países. Depois, há o cobiçado petróleo venezuelano que Portugal precisa e que o primeiro-ministro diz ser fundamental para garantir a segurança do Estado. Finalmente, há ainda as oportunidades de negócio que surgem com um país cada vez mais fechado sobre si próprio e com mais inimigos externos. Espanha, antes do célebre “porque não te calas”, também tinha boas relações com a Venezuela. Zapatero vendera a Caracas 1,5 mil milhões de dólares em navios e aviões de transporte militar. As boas relações pareciam consolidadas. Bastaram umas palavras azedas para pôr tudo em causa.
Sem nunca o assumir, é este espaço que Portugal quer discretamente ocupar: o espaço de Espanha ou, pelo menos, parte dele. Há quem lhe chame pragmatismo, como José Sócrates. Ou pragmatismo sem princípios – como dizem os críticos desta diplomacia económica que os empresários portugueses tanto elogiaram em Caracas. Seja como for, a escolha do Governo português é uma actuação no fio da navalha. Tem riscos. No almofariz das relações comerciais e políticas entre dois Estados cabem muitos condimentos de diversa natureza, natureza até contraditória. Mas as escolhas de Portugal serão tudo menos discretas. Serão sempre ruidosas. Negociar com o homem que já insultou Bush (“um diabo”), Aznar (“companheiro de Hitler”), Condoleeza Rice (“totalmente analfabeta”), o Rei Juan Carlos (“quem pensa que é? Ele também vai à casa de banho como nós”) e, mais recentemente, Angela Merkel (“senhora chanceler, vá…”) terá provavelmente o seu preço. Sócrates foi eleito para fazer escolhas, umas mais difíceis do que outras, umas mais polémicas do que outras. Será por elas que será avaliado. Para os empresários portugueses não há dúvida nenhuma: o caminho parece o mais certo.