Objectivo Venezuela - Dia 4 2008-05-16 00:05
Sardinhas em troca de petróleo
As oportunidades de negócio na Venezuela vistas pelos empresários portugueses e os desafios para as empresas: alimentos, construção, medicamentos e energia.
Na quarta-feira de madrugada, empresários portugueses e o ministro da Economia regateavam o preço da sardinha em lata e de outros produtos com os representantes políticos venezuelanos. As negociações foram tensas, duras, cêntimo a cêntimo. O acordo comercial entre Portugal e a Venezuela, como contrapartida para a compra de petróleo, implicou cedências dos dois lados, preços convidativos. No caso dos alimentos que Portugal passará a exportar, o objectivo do governo de Hugo Chávez é incluí-los na cesta básica que é depois vendida à população mais pobre e carenciada. Chávez não quer produtos de luxo, quer produtos baratos e de qualidade. E quer ter a certeza que Portugal tem capacidade de resposta para o volume pretendido.
Ferreira de Oliveira, presidente da Galp, está preocupado com este ponto. O êxito do acordo que ele assinou para compra de petróleo venezuelano tem este reverso da medalha. Quase um terço do valor pago ficará em Portugal – através da Caixa Geral de Depósitos – para custear estes produtos. Nalguns casos, são pequenas e médias empresas que vão produzir e vender os bens em causa, como leite em pó, sardinhas, bacalhau, azeite e maquinaria. Há algum risco de os fornecimentos falharem por incapacidade de resposta. “Temos não só de cumprir, mas de ultrapassar as expectativas deles”, sublinha Ferreira de Oliveira, empenhado em limpar as pedras que possam bloquear o caminho das boas relações.
Os 80 empresários e gestores que viajaram até Caracas sublinham a importância da Galp e do Governo nas negociações. Sem Galp e sem o apoio político não haveria contratos para ninguém. “É fundamental que este caminho seja aberto pelo Governo. Há mercados onde não há outra maneira para conseguir entrar. Os franceses fazem isto desde sempre: a política alavanca os negócios”, diz Vera Pires Coelho, presidente executiva da Edifer. Faria de Oliveira, presidente da Caixa Geral de Depósitos e antigo ministro de um governo de Cavaco Silva, concorda. “Há uma dinâmica de origem política que marca o ritmo”, diz, vincando que a presença de uma vasta comunidade de 600 mil emigrantes ajuda a fazer o resto.
No caso da Caixa, que tem um escritório de representação em Caracas, não há por enquanto a vontade de fortalecer mais a operação, ao contrário do espanhol BBVA que está em força no país. “A Galp revelou visão estratégica, a Caixa apoiará tudo e quer aproximar-se mais da comunidade portuguesa”, resume Faria de Oliveira. Já Vera Pires Coelho olha para os emigrantes como um factor a aproveitar. “Há muitos portugueses ligados à construção. Embora ainda não conheça os planos de obras públicas previstos pela Venezuela, se quisermos fazer alguma coisa, é certo que nos vamos apoiar nesses portugueses para fazer sub-empreitadas.” Porque motivo a Edifer não tem hoje negócios com a Venezuela? A presidente da Edifer responde: “Já tivemos em 1982. Não temos recursos para estar em todo o lado. A nossa empresa está muito focada na zona do Mediterrâneo e nos PALOP. Veremos agora se é possível alargar as nossas fronteiras.” O facto de a Teixeira Duarte já estar instalada na Venezuela também ajuda.
O presidente da Bial, Luís Portela, empresa de produtos farmacêuticos, partilha a opinião. O facto de não haver grande segurança no que diz respeito à protecção de patentes condiciona, para já, as ambições, embora esteja previsto abrir aqui uma delegação comercial. Produzir é que está fora de questão. “Para já, vamos vender os nossos produtos aqui, alargando a nossa operação na América do Sul. A comunidade portuguesa conhece alguns dos nossos medicamentos, como o Reumon Gel, e isso é uma vantagem comercial a explorar”, diz Luís Portela. A Efacac, liderada por Luís Filipe Pereira, também tem objectivos concretos. O antigo ministro da Saúde de Durão Barroso acha que Portugal deve ser ambicioso e vender não apenas produtos alimentares, mas apostar em negócios com maior valor acrescentado.
O facto de a Venezuela ter projectos para instalar 1000 megawatts de potência e desenvolver centrais de ciclo combinado é olhado com grande interesse. “O Governo abriu a porta, ainda bem, agora é preciso fazer o resto. É bom vender queijos e sardinhas, mas temos de ser mais ambiciosos. A mudança estrutural da nossa economia exige-o. Temos de vender engenharia à Venezuela”, afirma Luís Filipe Pereira, apontando para o recente apagão na Venezuela como a prova de que há oportunidades a aproveitar antes que venham outros países.