Observatórios

Objectivo Venezuela - Dia 4 2008-05-16 00:05

Sócrates, Chávez e pragmatismo

A questão é determinante: deve portugal relacionar-se comercialmente com o país de Hugo Chávez? Primeiro-ministro e empresários dizem que sim e justificam.

Os cigarros de José Sócrates a bordo do avião da TAP e o helicóptero atacado por uma ave desgovernada foram os assuntos que pareceram concentrar a agenda mediática nesta viagem do primeiro-ministro à Venezuela. Com tanto ruído, a verdadeira discussão que se esperava foi pelos ares, merecendo apenas algumas notas de rodapé. Que debate seria, então, previsível? Que discussão seria normal esperar desta visita de três dias ao presidente venezuelano? Numa altura em que uma parte da comunidade internacional contesta abertamente Hugo Chávez e a outra o acusa de querer impor uma espécie de regime comunista do século XXI, quais os riscos e as vantagens desta visita contra a corrente do primeiro-ministro português?

No Observatório do Diário Económico, organizado em Caracas, a questão esteve sobre a mesa. Empresários e gestores falaram dela, Sócrates também. Todos estão mais ou menos de acordo, as diferenças são apenas no grau de entusiasmo: ambos querem concretizar negócios. Para o primeiro-ministro, a questão não merece, aliás, quaisquer hesitações. Chávez não merece hesitações. A relação económica entre os dois países deve ser favorecida, estimulada, assumida. “De acordo com o politicamente correcto, parece que há países infrequentáveis. Parece que as escolhas do povo venezuelano não contam. Este país tem realizado eleições democráticas. Na verdade, tem eleições quase todos os anos: para o governo, para as regiões, para as câmaras, até tem feito referendos. Quando não há eleições, Chávez até as inventa. E quando as perde [como aconteceu no último referendo], ele aceita a derrota”, diz José Sócrates, desvalorizando as suspeitas constantes que têm posto em causa a transparência dos escrutínios e o relacionamento feroz do presidente venezuelano com a oposição interna.

Para o primeiro-ministro, há outro ponto que convém sublinhar. O facto de viverem 600 mil emigrantes na Venezuela é um ponto fundamental a ter em conta. “Seria irresponsável se eu não desenvolvesse relações com este país. Estas pessoas foram um pouco abandonadas nos últimos anos. Esta é uma comunidade próspera e que se fez a si própria e que tem de ser apoiada. Nós temos orgulho neles, orgulho nestes portugueses, e isso não é um facto menor. Temos orgulho e temos de os apoiar. Mesmo se estiverem contra o governo local. A Venezuela é um país amigo há mais de 30 anos.” Sócrates acrescenta outro ponto: o pragmatismo dos políticos não pode ser afastado, os políticos “têm de preocupar-se com os resultados”.

A ponte para a economia e para os acordos assinados com a Venezuela é evidente. A necessidade de encontrar novos mercados para as empresas portuguesas, confrontadas com a desaceleração na Europa e nos Estados Unidos, “é um objectivo assumido”, diz Manuel Pinho, ministro da Economia. Quando os contratos assinados nestes três dias se concretizarem, as exportações saltam dos 17 milhões de euros para os 200. Ou seja, a Venezuela deixa de ser o 59ª cliente e passa para o clube dos principais 10, a um passo do Brasil. A ideia é chegar aos 500 milhões de euros em exportações por ano, se calhar aos mil milhões, quantifica Manuel Pinho, talvez demasiado optimista. Desde Setembro, o Governo veio cinco vezes a Caracas negociar e abrir caminho aos empresários. Para já, todos os negócios que se vão realizar serão protegidos pelo guarda-chuva dos dois governos. Manuel Pinho e o secretário de Estado do Comércio, Fernando Serrasqueiro, regressam em breve à Venezuela.

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