Internacional - Economia

Comércio 2006-08-31 14:54

ONU prevê esgotamento dos EUA como potência consumidora mundial

Analistas de comércio e de desenvolvimento das Nações Unidas acreditam que a Alemanha e o Japão têm a nova responsabilidade de evitar uma possível crise económica, que afectaria especialmente os países em desenvolvimento, face ao esgotamento dos Estados Unidos como a grande potência consumidora do mundo.

DE com EFE

A Conferência da ONU para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad) divulgou hoje o seu "Relatório sobre o comércio e o desenvolvimento 2006", no qual diz que os EUA vêm a fazer há 15 anos o papel de "consumidor" na economia mundial, absorvendo o que é exportado pelo resto do mundo.

Graças a isso, os países em desenvolvimento (especialmente da Ásia e da América Latina) conseguiram acumular grandes excedentes comerciais, estabilizaram as suas taxas de câmbio em níveis bem mais baixos (para que as suas economias sejam mais competitivas) e acumularam uma alta quantidade de reservas em dólares.

Essa estratégia, que a Unctad chama de "depreciação e intervenção", permitiu ao mundo em desenvolvimento transformar os excedentes comerciais no motor de seu investimento e crescimento, o que lhes permite estar menos expostos às grandes crises económicas.

No entanto, os analistas da entidade advertem que esse cenário não será eterno e temem que a capacidade dos EUA de actuar como "consumidor mundial", e, portanto, como locomotiva económica, esteja a chegar ao seu limite.

"Dizemos isso há meses: a correcção dos grandes desequilíbrios da economia mundial provocará uma crise que terá consequências muito sérias para os países em desenvolvimento", afirmou o secretário-geral da Unctad, Supachai Panitchpakdi, na apresentação do relatório.

Assim, uma forte depreciação do dólar ajudaria a restabelecer a competitividade dos EUA, mas também reduziria sua procura por importações, da qual o crescimento mundial depende em grande parte.

"Alguém terá de tomar as rédeas e tornar-se o motor da economia mundial a partir deste ano ou do ano que vem", disse o director de Estratégias de Globalização e Desenvolvimento da Unctad, Heiner Flassbeck, para quem "os sucessores naturais são o Japão e a Europa, e, dentro da Europa, a Alemanha", porque "são as maiores economias".

"Em vez de compartilhar com os EUA o papel de consumidores do mundo, (esses países) também foram produtores. Por isso, acumularam enormes excedentes comerciais e agora gozam de grande competitividade", disse Supachai.

Os analistas consideram que os dois países devem expandir sua procura interna, aumentar as suas importações e ajudar assim os EUA a recuperar sua competitividade, reduzindo o seu défice.

Com isso, os países "vendedores" poderiam continuar com seu papel, o que evitaria uma provável crise.

O director da Unctad lembrou também que países como o Japão e a Alemanha têm excedente alto e um crescimento extremamente pequeno.

"Esses dois países devem fazer um esforço para reduzir o risco de uma crise" e, para isso, "têm de reforçar sua procura interna", acrescentou.

De qualquer modo, a organização da ONU não prevê que aconteça a curto prazo uma crise financeira comparável às ocorridas Ásia e na América Latina há uma década, apesar da crescente volatilidade dos mercados de valores e de câmbio dos países emergentes e em desenvolvimento.

Flassbeck recomenda à América Latina e à Ásia que criem empresas nacionais e invistam na inovação, estipulando taxas de juros baixas, para incentivar o investimento, assim como taxas de câmbio competitivas e estáveis.

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