Opinião
O Inquietante BCP
O BCP apresentará hoje, mais tarde do que o habitual, os resultados do primeiro trimestre deste ano. Na sua primeira prestação de contas desde que assumiu a liderança do maior banco do paÃs, a 15 de Janeiro, Carlos Santos Ferreira não terá boas notÃcias para dar.
SÃlvia de Oliveira
A turbulência que o BCP viveu nos dois últimos anos ainda queima e a crise financeira internacional já provou que não poupa ninguém. Por isso, hoje o que estará nas suas mãos é, essencialmente, a forma de apresentar a realidade e conduzir a leitura dos números. A média das estimativas dos analistas apontam para uma queda de 30% dos lucros, mas existem cenários bem mais negativos. Há quem antecipe uma redução de 77%, caso o BCP opte já por reflectir nos resultados as menos-valias potenciais acumuladas com a desvalorização da participação que tem no BPI. E, ao longo das últimas semanas, chegou mesmo a falar-se da possibilidade de a equipa de Santos Ferreira apresentar prejuÃzos. Numa lógica de tentar varrer os cantos e por debaixo dos tapetes para a seguir recomeçar com a casa já mais limpa e recuperada, à custa também do aumento de capital.
O que Santos Ferreira decidir fazer será importante porque é para o lucro que se olha primeiro. Um prejuÃzo no maior grupo financeiro privado seria um mau sinal em Portugal e nos mercados internacionais, que neste momento fazem uma ligação directa entre os resultados dos bancos e o ‘subprime’. Mas a saúde do BCP ou de qualquer outro grupo financeiro mede-se também através de outros indicadores, desde a evolução da margem financeira à do rácio de solvabilidade, passando pela das provisões ou pela do rácio de crédito vencido. Num ambiente de crise, onde o financiamento é mais difÃcil e mais caro, até a evolução dos depósitos merecerá uma atenção redobrada.
Carlos Santos Ferreira apresentará as suas primeiras contas, dará a cara como primeiro responsável pelos resultados do BCP, mas não serão os mapas financeiros deste trimestre que mais pesarão na avaliação aos seus primeiros quatro meses de trabalho. O novo presidente do BCP foi eleito para resgatar o banco de um passado turvo, para o recolocar estrategicamente, mas também para imprimir com as suas iniciais a credibilidade perdida na gestão. Uma tarefa que não se conclui de um dia para o outro, mas que se deve começar a sentir quanto antes. É à luz desta urgência e das investigações em curso pelas autoridades de supervisão que o novo presidente do BCP terá de explicar, por exemplo, o que mudou na direcção de auditoria interna do banco, se é que mudou alguma coisa, mas também a proposta de renovar o mandato e manter o histórico auditor externo do banco, a KPMG. Ainda que se desconheçam as verdadeiras razões, o passado mostrou que estes dois filtros – auditoria interna e auditoria externa – não funcionaram. Um facto que não parece inquietar Santos Ferreira. Seria importante saber porquê.
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