Opinião
O paradoxo da comunicação
Estar fisicamente presente começa a ser irrelevante e mesmo contraproducente. A presença física desvaloriza.
João Almeida Santos
Vivemos em tempo de paradoxos. Num tempo em que comunicar parece ser um fim em si. Claro, vivemos na sociedade da informação. Numa sociedade onde já nem são os indivíduos quem procura a informação, mas a informação que os procura a eles. E não me refiro só à informação convencional. Refiro-me à comunicação difusa, acerca de tudo, do que acontece e do que não acontece. Do público ao privado, ao íntimo. A um ponto tal que quando um telemóvel está cinco minutos sem tocar o proprietário cai em prostração, convencido de que já ninguém quer saber dele. A importância das pessoas parece medir-se, cada vez mais, pelo número de chamadas que recebe. Faz-me lembrar o que alguém me disse, num país longínquo. Ficara espantado com o número de telefones que um ministro tinha no seu gabinete. “Aqui é mesmo assim”, explicaram, “os ministros mais importantes têm mais telefones do que os outros”. O poder mede-se pelos telefones que um político tem no seu gabinete. Claro, informação é poder. Só que a coisa já ultrapassou de longe a dimensão racional. Já todos passámos por situações em que quem telefona tem prioridade sobre quem lá está. Um dia, fui almoçar com um colega. O almoço fora agendado à distância de dois meses. Tínhamos assuntos profissionais e pessoais a tratar. Pois bem, passados dois meses lá conseguimos o tão desejado almoço de trabalho, num bom restaurante. Ora, o que aconteceu foi que, praticamente, não consegui falar com o meu colega durante todo o almoço. Porquê? Porque esteve a falar ao telemóvel desde que chegou até que saiu. É claro que jurei que nunca mais iria almoçar com ele. A cena do telemóvel naquela escola do Porto mostra bem a dimensão fetichista do objecto. Se bem se lembram, as televisões nessa altura passaram um pequeno filme em que se via um professor americano pegar no telemóvel do aluno que falava durante a aula e destruí-lo. Muito se disse da coragem do professor. Só que, ao que parece, o facto não era real, fazendo o filme parte de um ‘spot’ televisivo a recomendar aos alunos que desligassem os telemóveis antes de entrarem nas aulas.
Se pensarmos nas discussões acerca do papel desestruturador da televisão sobre a vida comunitária familiar, ser-nos-á mais fácil compreendermos agora o papel desestruturador difuso do telemóvel ou mesmo da Net. O que está verdadeiramente em causa é o modelo físico de comunidade. Esse está comprometido. Estar fisicamente presente começa a ser irrelevante e mesmo contraproducente. A presença física desvaloriza. Num carnaval, na minha terra, coberto, em directo, pela RTP, aconteceu esta coisa paradoxal: quando o directo estava a acontecer, a partir da praça central da aldeia, a maior parte das pessoas deixou a praça real para ir ver, no café, a praça televisiva, quase acabando com a razão do próprio directo, por falta de personagens. A comunicação tecnológica está a tornar residual a comunicação de tipo comunitário, o intercâmbio físico, a dimensão natural da vida em comunidade. Joshua Meyrowitz escreveu um livro sobre os media electrónicos com o seguinte título: “No sense of place”. A comunicação hoje prescinde do “lugar”, é “atópica”. A utopia parece ter dado lugar à “atopia”. Mas é a mesma coisa em dimensões e intensidades diferentes. É por isso que, de vez em quando, volta a velha palavra de ordem do ‘back to the basics’, como que a dizer que estamos a dar passos mais compridos do que as nossas pernas ou que estamos a sofrer um irreversível processo de “desrealização”. E é aqui que reside o paradoxo: a comunicação, em vez de aproximar, tende cada vez mais a afastar. Comunicamos cada vez mais com quem está longe e cada vez menos com quem está perto de nós. Poder-se-á dizer que um olhar vale mais do que mil telefonemas ou mil ‘chats’ ou que o silêncio é a forma de linguagem mais profunda, mas a verdade é que as próteses electrónicas estão cada vez mais a tomar o lugar dos nossos sentidos. Radicalizando um pouco, atrever-me-ia a falar de uma espécie de adormecimento progressivo dos sentidos quando até parece que eles estão no seu máximo esplendor. Bem pelo contrário, a invasão das próteses electrónicas e a procura desenfreada da emoção sensorial indiciam que aquela sensibilidade multi-sensorial que resulta da experiência directa, física, complexa e una está a tornar-se cada vez mais residual.
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João Almeida Santos, Filósofo
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vg
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O que conta é cada um de nós e o seu PIN...Pinocracia..
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