Opinião


Paris, Maio 68

Se a Guerra de Espanha ainda excita a memória da Esquerda, o Maio de 68 transformou-se numa discussão de família.

Carlos Marques de Almeida

Na campanha para o Eliseu, Nicolas Sarkozy afirmou que talvez fosse tempo de “liquidar a herança do Maio de 68”. Se a Guerra de Espanha ainda excita a memória da Esquerda, o Maio de 68 transformou-se numa discussão de família. O preto e branco difuso das imagens de Paris pertence à mitologia do século XX. Os cartazes de Marx, Lenine e Mao nas colunas da Sorbonne são o cenário melancólico de uma juventude que, 40 anos depois, procura no ideal de um passado a inspiração de um tempo perdido.

Afinal, e para além do subtexto erótico, o que ficou do Maio de 68? Desde logo, a ideia de que a obediência representa a capitulação, a humilhação e a derrota. Depois vem a convicção de que a “verdade” muda ao ritmo das épocas. A mesma “verdade” está associada a uma “consciência” imposta pela “classe dominante” e que lucra com a propagação de uma “verdade” particular. Assim, a “verdade”, o “conhecimento” e a “cultura”, não são mais do que “discursos do poder”. O espírito de 68 segue com rigor uma equação simples – onde existe “poder”, existe “opressão”, e onde existe “opressão” existe o “direito à destruição”.

A crítica a todas as formas de “autoridade” veio por sua vez originar uma espécie de hiper-individualismo que domina e caracteriza as sociedades contemporâneas. A luta contra o “autoritarismo” acabou por estabelecer a consciência individual como fonte única de autoridade. O resultado é a fragmentação da sociedade, a pulverização do património comum e a multiplicação de “identidades” e “causas”. Eis a ideologia dispersa que domina no Ocidente e que julga que uma civilização é apenas o somatório de todas as “tribos”.

Mas existe um paradoxo nesta “libertação do indivíduo”. E o paradoxo reside numa forma de “autoritarismo moral”, um autoritarismo que, ao mesmo tempo que celebra o indivíduo, pretende regular os aspectos mínimos da existência em sociedade. A ideologia oficial do Estado pós-autoritário pretende a imposição da tolerância, não percebendo que a tolerância implica uma reciprocidade incompatível com os modelos absolutos.

Saindo da Sorbonne, percorrendo a Rue Saint-Jacques, chega-se finalmente ao Sena. Na Petit Pont, os turistas param para observar o rio. Longe vai o fumo de 68. O Sena e a arquitectura das fachadas clássicas acordam no espírito a marca de uma cultura e o conforto de uma civilização.

NaturezaDasCoisas@gmail.com
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Carlos Marques de Almeida, ‘Senior associate’ do St. Antony’s College, Oxford

Comentários
 
vg
Maio de 68 foi um episódio social,depois mal gerido por De Gaulle,incensado por pseudo-intelectuais da época ,onde destaco Cohen-Bendit,agora um aburguesado euro-deputado bem pago,que fala cheio de "moralismo".Um euro-Loucã..-.
 
MAVERICK
Maio68 sob o ponto de vista sociológico foi o acontecimento mais marcante do século XX sendo provávelmente "reeditado" ( faço votos para que seja para breve ) se a Europa, não fizer nada de verdadeiramente inovador para inverter a presente situação, agora com uma nova e perturbante variável - OS WOORKING-POOR!
 
X-Man
O sócrates também deve ser da geração de 68 e julga que as leis não se aplicam a ele por isso fuma nos aviões e acusa toda a gente de calvinismo político. Ele é que pratica o autoritarismo que o dr fala, o que é bom para os outros não é bom para mim. É sócrates acima da nação e viva portugal.
 
JCP
Parabéns pelo grande artigo como não se escreve na imprensa portuguesa. Uma coluna pura e dura à moda de uma europa civilizada que Portugal continua a ignorar. Está de parabéns o colunista e o Diário Económico que assim beneficia os seus leitores.
 
Marx
O sr marques de almeida esquece-se que a pílula esteve na origem do maio de 68 porque o pessoal queria acesso aos dormitórios das raparigas. A confusão afinal era efeito da libido e a esquerda vive de uma libido reprimida. Em Portugal era tudo uma questão de lutar contra o Salazar e a guerra colonial e a lenga-lenga do costume. Falta a música e os Beatles mais o maravilhoso programa do Júlio Isidro na recordação da data. Apesar de tudo, o artigo contribui para algum esclarecimento .... o que já não é nada mau!
 
VL
Esta sociedade burgo-portuguesa é curiosissima, agarra-se a cada coisa, e curiosamente à falta de santos para beatificar idolatra coisas que nem ao diabo lembra, o Maio de 68 serviu à falta de melhor para branquear certas consciências e justicar "porcarias" que passaram a ser entendidas como quotidianas e não encobertas como era costume.
 
 
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