Opinião


Os media e a insegurança

A questão da segurança é sensível porque atinge o cidadão na sua esfera mais íntima, condicionando o seu próprio exercício da cidadania.

João Almeida Santos

Se reflectirmos bem no significado do contrato social originário, aquele que dá origem ao Estado moderno e às democracias, veremos que a segurança é, com a liberdade e a igualdade, um dos seus valores matriciais. Com efeito, o Estado surge para preservar a liberdade e a propriedade de cada um, não as deixando à mercê da força privada. A existência de um ‘tertium’ regulador e “supra partes” cria, ao mesmo tempo, condições para que o princípio da igualdade se comece a instalar na sociedade moderna. O Estado surge, pois, para moderar a chamada “liberdade natural” e a lei do mais forte, garantindo segurança à esfera privada. A segurança está, pois, na origem do contrato social, sendo considerada como bem público essencial.

Compreende-se, pois, que a questão da segurança seja tão sensível, uma vez que pode pôr em causa os próprios fundamentos do sistema social. Também se compreende que regularmente esta questão esteja no topo da agenda política e da agenda mediática. Mas esta questão não é só sensível por estar na origem do contrato social. Ela é sensível porque atinge o cidadão na sua esfera mais íntima, condicionando o seu próprio exercício da cidadania. O conceito assume, pois, uma dimensão psico-social que pode afectar, por esta via, todo o sistema. Esta dimensão chama-se “sentimento de insegurança” e tem uma escala muito mais ampla do que a segurança em concreto, aquela que resulta directamente dos ambientes físicos de risco. O “sentimento de insegurança” é difuso, é interior, não tem uma cartografia definida, é multifacetado e pode atingir uma dimensão pública dificilmente controlável. Por isso pode ser facilmente induzido, a partir de situações reais ou mesmo encenadas. Ainda bem recentemente assistimos a uma crise larvar relativa à suposta escassez de um produto alimentar. A “psicologia social” tem muito a dizer sobre este assunto. E, por isso, não é muito difícil de compreender que este “sentimento” possa ser facilmente manipulável para os mais diversos fins, da política à economia.

Mas por isso mesmo não é desejável que a questão da insegurança se transforme em obsessão mediática, provocando um generalizado “sentimento de insegurança” nos cidadãos e uma guerrilha política que só prejudica o trabalho das forças de segurança e do poder judicial e a própria relação do cidadão com a comunidade e com o espaço público. É verdade que, há muito, o “Correio da Manhã” todos os dias conta, em páginas e páginas, os inúmeros casos de polícia que vão acontecendo no quotidiano dos nossos dez milhões e meio de cidadãos. Mas o mesmo não deveria acontecer, por razões óbvias, com as nossas televisões. Lembro-me do caso das eleições presidenciais francesas de 2002 e do aumento exponencial de cobertura mediática da insegurança durante a primeira volta (126%), sem que isso correspondesse aos factos, mas com a consequência de ter contribuído para levar o candidato securitário Le Pen à segunda volta. Mas também me lembro que o posterior receio de uma vitória de Le Pen fez cair a mesma agenda da insegurança em 50% (67% na TV) durante a segunda volta.

Não é bem o nosso caso, até porque, de facto, se verificou, no primeiro semestre de 2008, um ligeiro aumento de 3,35% na criminalidade violenta e grave relativamente à média dos anos 2004-2008 e de 3.98% na criminalidade global relativamente à média dos anos 2003-2008. Mas nem por isso, com estes números, se justifica o alarmismo mediático que se está a verificar. Até porque anos houve em que os índices da criminalidade violenta e grave foram superiores  (2004 e 2006, por exemplo) sem que os media tivessem dado tais honras de agenda ao fenómeno.

A verdade é que este agendamento mediático da insegurança é perfeitamente compreensível no quadro das opções editoriais que vêm sendo tomadas pelos media e que sumariamente poderiam ser designadas por “tabloidismo galopante”. É certo que estas opções há muito que estão detectadas e estudadas (até em teses de doutoramento). Mas, na verdade, este bem pode ser considerado um autêntico ‘up-grade’ do género “interesse humano” que vem sendo abundantemente cultivado, uma vez que agora – e à míngua de fogos florestais - se trata de uma questão que atinge o núcleo central do contrato social. Por isso, ela não deveria ser tratada como simples assunto de “interesse humano”. Mas creio que os «Senhores da Opinião» ainda não se deram conta disso.
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João Almeida Santos, Filósofo

Comentários
 
vg
O "Correio da manhã" sempre deu reportagens de assaltos e manchas de sangue, nas escadas e passeios.Mas para os senhores das estatísticas, há, de repente ,uma cabala de todos os media,contra a governação e todos os que tratam de segurança.O que interessa na política é a "percepção".Mas, recomendo aos que estão no sistema, para andarem com um estatística no bolso e ,se assaltados,expliquem ao marginal que o assalto não está previsto..
 
Encantador de Serpentes
" 6 artistas" fanaram uma ATM no Alentejo e "aterraram" na zona vinhateira do Poceirão. Cercados por 3 patrulhas da GNR...milagrosamente escaparam. E agora quem desvenda este "mistério" ?
 
jorge (luis-jorge@mail.telepac.pt)
Não há dúvida que quanto mais degradação social (ex. desemprego, pobreza…), mais a violência cresce. Não há dúvida, também, que o tipo de crimes agora vistos em Portugal são de fazer inveja a Hollywood. No meio é que está a virtude, e tentar branquear o que se passa, não me parece a medida correcta. Quem ouvir os nossos políticos e alguns comentadores, isto é um oásis: A recessão económica é só para os outros, o desemprego está a baixar, Portugal tem as contas públicas em dia…!!! É um forrobodó!!!
 
lc
Pondo de lado estatísticas e teorias, o facto é que as pessoas se sentem cada vez mais inseguras. Não me refiro a quem tem posses para viver em condomínios fechados e faz toda a sua vida num círculo onde está muito mais protegido do que a esmagadora maioria dos cidadãos, mas sim ao cidadão comum. Basta ver que, por falta de segurança muitos centros comerciais tiveram de fechar lojas, outros passaram a encerrar mais cedo ou, pura e simplesmente, fecharam portas. O mesmo se pode dizer de cafés e restaurantes onde até há poucos anos se podia beber calmamente um café depois de jantar e que agora se encontram às moscas porque já são poucos os que se atrevem a sair depois das 8 da noite. Há muitas zonas onde, por causa da insegurança, o comércio morreu. As fachados dos prédios apresentam cada vez mais os sinais do vandalismo. E quem é que se atreve a andar um pouco a pé depois de jantar? Quanto às estatísticas, valem o que valem. Já me tentaram assaltar várias vezes e nunca participei. Atendendo ao estado da «justiça» neste país, apenas dá trabalho e é inútil. E pode ser perigoso. Basta pensar na situação de nos cruzarmos no dia seguinte com o assaltante de quem se participou, entretanto posto em liberdade, e acompanhado dos amigos. E já que se fala tanto do estado da economia, qual será o prejuízo que este estado de insegurança causa ao País? Certamente, determinado tipo de jornalismo explora esta situação, mas, por outro lado, tentar minimizar o assunto apenas contribui para deixar agravar o problema.
 
CSMA
Uma boa medida para baixar a criminalidade é deixar as pessoas ter o direito de se defender com as mesmas armas com que os gatunos actuam. È curioso ver nós os caçadores a sermos tratados como bandidos quando queremos renovar o uso e porte de arma mas como o cromo que fez esta lei tem medo dos verdadeiros bandidos então vira-se para os que estão legal e trata-os como bandidos e dessa maneira pensa resolver o assunto. Já agora estas mega operações mais não servem se não para caça á multa. Um conselho senhores politicos porque não vão outra vez de férias no cruzeiro que está de visita a lisboa ainda vão gostar.
 
Gaston
O seu princípio teórico é interessante e aceitável, no entanto, parece-me que cresce de facto uma certa bandalheira, que se instala devagarinho, mas que já está a tornar este pais um pouco repugnante. Sente-se um clima de enorme impunidade e de balda. É um facto que as fronteiras estão escancaradas e que isso não vai trazer nada de bom. Percebe-se que andam por aí estrangeiros ilegais aos magotes, sem qualquer controlo policial (toda a gente os vê, menos a policia).Resumindo o lado subjectivo existe, mas a realidade não se pode ignorar...
 
alfa
Bem escrito este artigo! É por demais evidente que o sentimento de insegurança aumentou nos últimos dias num grau de magnitude muito superior ao aumento real da criminalidade!!! Isso deve-se em grande medida a uma grande grande "onda de falta de assunto" que assolou os média nacionais no mês de Agosto.... particularmente acentuada pela inesperada falta da tradicional matéria prima para esta época: os FOGOS!!! É lamentável (e socialmente perigoso!) ver os média dos mais variados quadrantes enveredarem pela "tabloidização" da informação. Escravos das audiências trocam a verdade pelo espectáculo !!!
 
O Zé
Há muito que os cidadãos se confrontam com a insegurança que sofre as mesmas oscilações das crises económicas nacionais e internacionais. Em Portugal quase tudo funciona mal por que razão a segurança teria que funcionar bem? Depois das vinte uma horas a população recolhe aos lares e noite fica entregue aos homens da noite. A policia há muito desapareceu das ruas e quando aparece é para multar os automobilistas, se não tivesse visto nas televisões estas últimas operações policiais, pensava que já quase não existiam policias. Em tempos o desemprego era apenas para os "inadaptados às novas tecnologias" hoje há centenas de licenciados no desemprego, será que os bem pensantes esperam que toda esta gente ande de mão estendida esmolando a existência? Por favor não vejam neste comentário qualquer critica ao governo actual, os governos mais responsáveis são aqueles que tiveram meios para alterar a situação e não o fizeram.
 
FT
Repetições, vezes sem conta, dias e dias depois do acontecimento, da imagem do sequestro do BES, ouvindo-se SEMPRE o barulho provocado pelo tiro, como fez a TVI, mesmo que fosse para simplesmente ouvir uma opinião de um familiar de um dos sequestradores, são causadores de tanto sentimento de insegurança como o próprio acontecimento e em qualquer outro País civilizado já teriam sido tratadas em Sede própria, Tribunal.
 
Olho Vivo
Este País está quase à mercê dos marginais, porque este governo só fala, fala e nada faz contra toda esta marginalidade que está a crescer a olhos vistos, descarada e dessimulada. Nota-se em todos os sítios que vamos, accionam produtos toxicos que espalhados no ar, incomodam e até chegam a fazer sérias alergias nos olhos e garganta das pessoas mais sensíveis, para além de outros, que fazem sentir cólicas abdominais, Estes toxicos afectam tambem os pulmões, e as pessoas que são alergicas já começaram a inchar.O nosso primeiro ministro, é já um deles. As autoridades sabem muito bem o que se passa, pois tambem estão a ser afectadas, mas ninguem decide proibir estes produtos, que não sei de que fontes vêm. Estão a deixar este assunto se alastrar cada vez mais, e nada se faz. Preferem justificar hipocritamente, com a desculpa de que a poluição é cada vez maior, etc.É mais cómodo e mais fácil ignorarem, dá menos trabalho. Assim vão levando com os toxicos no organismo até incharem e rebentarem de vez! Porque se estão à espera que a malta da pesada se canse, estão muito enganados, eles apanharam uma "arma" invisivel, silenciosa e inodora, já mais irão abdicar dela, vão vos chatear até à quinta geração!
 
LL
É um fartote ver esta esquerda alegre a clamar pelo endurecimento das penas, aplicação a eito da prisão preventiva, e a promover rusgas com helicópteros à hora dos telejornais. Até já se ouviu o secretrário de estado a chamar "porta rotativa" ao actual sistema de justiça, tantos são os casos de crime-captura-apresentação ao juiz-colocação em liberdade-crime... Que é feito da direita e centro-direita portugueses? Ficaram sem palavras agora que este governo lhes roubou a cartilha da segurança! Francamente, já não há partidos como antigamente: põem-se socialista no governo e ouve-se social-democracia na economia, popularismo na segurança e bota-abaixismo na educaçãoe saúde. Uma receita singular para a 3ª via à portuguesa. Mas também, com o "Blair" que nos saiu na rifa...
 
José Luís
A politica do branqueamento e das lavagens cerebrais já não passa, por mais refinada que se apresente!
 
mario costa
O mais escandaloso é ouvir comentadores da esfera politica e até politicos do partido do governo dizer:- " Isto da criminalidade é normal numa sociedade democratica e os portugueses que se habituem ao AUMENTO DA MESMA"- Se a democracia é o garante da liberdade, e esta começa pela segurança dos cidadãos, é de perguntar se estes senhores, são mesmo democratas...
 
João Rodrigues dos Santos
A segurança é o nosso bem mais precioso e só quando falha é que damos pela sua real importância. Por isso acho que o Correio da Manhã devia ter mais cuidado quando anda a "brincar" ao Portugal inseguro pois além de ajudar a criar um sentimento de impunidade junto dos criminosos, abre caminho à justiça popular que, por sua vez, pode ser mais uma acha (?) para a fogueira da insegurança. De qualquer forma, pelo que leio, fico com a sensação de que houve, efectivamente, um aumento da criminalidade violenta e que esta precisa de ser mais eficazmente combatida nas suas causas.
 
 
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