Opinião


Consolados

Nos idos de 80 e 90, em reportagens frequentes nos países africanos de língua portuguesa, recordo-me de ver diariamente filas de portugueses e de naturais desses países, junto às representações diplomáticas nacionais.

João Paulo Guerra

Não se tratava de pretendentes ao repatriamento ou ao refúgio, dada a situação de guerra e penúria em alguns desses “palopes”. O que os falantes de português muito simplesmente procuravam nas embaixadas e consulados de Portugal era… o jornal “A Bola”. E postos a par das novidades no nacional-futebolismo, assim ficavam os portugueses e equiparados consolados das saudades da Pátria ou da Metrópole.

Talvez inspirado por este exemplo, o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas andará a acalentar a intenção de colocar espaços de livraria nos consulados de Portugal de modo a manter os emigrantes e afins em ligação com a língua e a literatura portuguesas. Como dizia o presidente do Conselho das Comunidades Portuguesas, é daquelas coisas acerca das quais não se pode dizer mal. Sobretudo se passarmos a ver filas de portugueses ansiosos, nas embaixadas e consulados, à espera das últimas novidades da prosa e da poética da Nação. Mas também não se pode dizer muito bem, na verdade. O Governo descobriu de súbito esta vocação para o comércio livreiro, quando há livrarias de língua portuguesa a fechar no estrangeiro por absoluta falta de interesse e de respostas do Estado.

Resta saber quem, como e com que critérios vai ser seleccionada a oferta a levar junto da procura de literatura portuguesa por esse mundo fora, tarefa que não cabe na vocação e orgânica da Secretaria de Estado das Comunidades. E sendo certo que o jornal “A Bola” já chega a todo o mundo ‘online’.

jpguerra@economicasgps.com

Comentários
 
vg
A "Bola" é uma produção literária que atravessou regimes politicos e décadas e suponho que, ainda o jornal mais lido.O que mostra que os tugas se mantêm iguais a si próprios,pelo menos há uns 50 anos( e coisa de homens ,como os forcados..)
 
NapoLeão
A realidade dos Consulados espalhados pela Europa...não aquece a alma aos nossos emigrantes. Se por cá não tinham hábitos de leitura, não será em Londres, Luanda, Madrid ou Paris que se tornarão, por milagre, atentos aos discursos saídos de Belém ou de S. Bento. Muito menos leitores de Saramago, Lobo Antunes ou do velho Camilo ou Eça !!!
 
Oliveira
Acedam alguns por Internet à imprensa e à literatura portuguesa, tal não impede que haja outros qua não o façam por falta de meios ou info-exclusão e dessa forma, nem que seja enquanto esperam por serem atendidos ou em recepções, será um meio de estreitar os vículos entre os nacionais vivendo no estrangeiro com a Pátria. É uma idéia simples, barata, sem desvantagens e sómente com benefícios.
 
Marco António Marques de Almeida (marco1alm@hotmail.com)
Deixem-se de livrarias nos consulados que isso não é preciso, o que é preciso sim são professores nas escolas portuguesas espalhadas por esse mundo fora, por ai é que deviam de começar mas o túnel é tão comprido que nem com um holofote de halogénio se vê o fundo.
 
Ruy
Os comentários já enviados são mais do que suficientes. Afinal de quem foi a bizarra ideia das tais livrarias?
 
Leandro Coutinho (L_Coutinhofr@Yahoo.fr)
"Livrarias portuguesas fecham por esse mundo fora por desinteresse do Estado"...Assim funciona a cabecinha do Guerra!.. Os livros, o Teatro, os Jornais, os cinemas..etc.. Vendem-se ou nao e enchem-se ou esvaziam-se conforme ha interesse neles por parte de leitores, espectadores, auditorio, etc.. Nao eh por interesse ou desinteresse do Estado.. O Estado bem que se "interessou" pelo jornal Republica, pela Capital, etc.. e eles despareceram porque ninguem queria ler as verborreias que la se publicavam.. (e o "Diario" -a verdade a que temos direito- do PC tambem desapareceu porque o partido nao podia suportar os custos de manter um pasquim que nem os militantes compravam..).. Por isso, se as livrarias no estrangeiro nao vendem, nao conseguem aguentar-se.. FECHAM.. esta certo..
 
Tiago Pires
Em relação aos livros há que esperar para ver que livros vão estar disponiveis e como serão distribuidos, dado que há cada vez menos consulados. Como residente no estrangeiro, a 70km do consulado mais perto, acho que há medidas mais importantes e mais urgentes, como por exemplo, bons professores e a tempo e horas para as escolas portuguesas. A escola de Amsterdam está há duas semanas (e não se sabe quantas mais vai estar) sem dois professores, ou seja, uma a duas centenas de alunos sem aulas, porque os concursos são sistematicamente atrasados.
 
MAVERICK
Sendo com efeito enorme o "universo" intelectual dos portugas, o desportivo "abola" é o "oráculo" de serviço identificando-se bem com o povão .... parado no tempo, biscateiro e engajado a interesses de ocasião, um "belo" paradigma!
 
R.Martins (r.martins@ukonline.co.uk)
Um critico literario Ingles disse: Portugal tem excelentes escritores! Mas nao tem quem os leia...
 
joca (jms_vz@msn.com)
Ainda nos arriscamos a que a "BOLA" va parar ao Plano Nacional de Leitura...Claro, mas em versao inglesa..pra algarvios lerem...
 
 
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