Editorial


As três crises

Vivem-se tempos perigosos. Tempos de crise. Desde Agosto do ano passado que esta palavra maldita tem dominado as notícias, as manchetes e os editoriais.

Bruno Proença

No léxico comum entrou mais um palavrão de ‘economês’: ‘subprime’, que os brasileiros traduziram – e bem – por hipotecas lixo. No entanto, os tempos, além de perigosos, são interessantes. O mundo não enfrenta uma crise mas três, ligadas entre si como gémeas siamesas. Há a crise do sistema financeiro, há a do mercado cambial e há a das matérias-primas (petróleo e alimentos). Tudo muito interligado como é próprio da globalização.

Usando o etnocentrismo habitual, os países desenvolvidos têm focado a sua atenção nas duas primeiras. O sistema financeiro congelado pela desconfiança e o dólar em queda livre são causa e efeito dos Estados Unidos em recessão e do resto da economia mundial perto da estagnação. Ainda assim, convém não ser míope. A crise das matérias-primas é, de longe, a mais grave porque é a mais estrutural. Nas outras duas, está a pagar-se a euforia e os erros de política económica, nomeadamente nos Estados Unidos. É uma questão de correcção de desequilíbrios. No caso do petróleo e da alimentação, são os primeiros sintomas do mundo novo, em que o motor da economia mundial está nos países emergentes, particularmente nos asiáticos.

Indianos e chineses querem consumir como europeus e norte-americanos. Isto colocou uma pressão na procura de energia e alimentos para a qual ninguém estava preparado. No caso dos alimentos, há mais um problema a ajudar à festa: os agrocombustíveis. Para diminuir a crise do petróleo, está a agravar-se o problema alimentar. Assim, no último ano, o preço do arroz subiu mais de 70%, o da soja mais de 80% e o do trigo muito mais de 100%. E a fome voltou. Não por falta de comida, mas porque as pessoas não têm dinheiro para comprar os alimentos básicos.

As consequências políticas são imediatas – o que sublinha a gravidade desta crise relativamente às outras. Os motins por causa da fome em vários países de África, Ásia e América Latina são um sarilho para os governos. Quantas guerras não começaram por causa de populações esfomeadas?

Tem de haver um ataque urgente a esta crise. Tendo a consciência de que ela é estrutural – em 1960, um hectare cultivado tinha que alimentar duas pessoas, em 2050 terá de alimentar seis. As primeiras notícias são preocupantes: mais proteccionismo. O caminho terá de ser o oposto. Mais mercado e melhores canais de distribuição dos alimentos para garantir que os preços baixarão. E aqui os países desenvolvidos têm uma palavra importante, já que sustentam sistemas agrícolas proteccionistas, irracionais e prejudiciais. Devem dar um sinal de abertura.  

Comentários
 
vg
Mas, alguem acredita que aumentos desses sejam consequencia dos chineses e indianos "começarem a comer" ou, a fermentar milho para alcool?Veja se arranja um amigo na bolsa de Chicago e ele lhe dirá que os mesmos que insuflaram o tijolo ,estão agora a fazê-lo com cereais.Carne ,peixe e legumes não sobem.Raio dos chineses, que só querem arroz...
 
NapoLeão
Arroz, trigo e milho. Para além do petróleo da Euribor e do nosso "explosivo IMI". No IMI e pouco mais, o Governo podia dar uma ajuda. O resto é "importado". Cheira-me a austeridade apesar do PM e MF tentarem "disfarçar" !!! As três crises nacionais são o PSD, o Benfica e as guerras surdas no interior do Governo !
 
Jose
Crise? Por cá, fala-se disso desde 2001! E não há maneira de ela se ir....
 
DPSilva
Eu sei que os liberais são pelo mercado e contra os subsídios à produção. Deixem passar mais uma geração e não haverá em Portugal quem saiba produzir trigo e milho. As hortícolas já vêm em grande parte de Espanha. Quando houver escassez no mercado os países produtores, primeiro, vão saciar a fome dos seus povos como está a acontecer com o arroz. Não deixem morrer os orizicultores portugueses. É uma questão estratégica. De independência nacional. De soberania. Só não vê isto quem anda muito obnibulado com as questões financeiras, mas, com barriga vazia não há alegria e casa onde não há pão... .
 
jgt
Correcção: A fome é por falta de comida. Não existe comida para que toda a crescente população do planeta tenha um padrão de consumo semelhante ao dos europeus e dos americanos. Se os chineses e indianos comem mais, a comida vai faltar em outro lado.
 
Realista
Mais uma vez as crises. Este autor é "mortinho" por crises. Para mim crises a sério, aqui no rectangulo, sãp as do Benfica, do Sporting e do Boavista (a mais séria de todas). Ha um problema sério (para nós ocidentais) que vem aí lentamente. É o acesso dos 1.300 milhoes de chinocas e 1.000 milhões de indianos ao mercado de bens de consumo. Este é um problema estrutural e não ha volta a dar-lhe. Quanto ao preço do petróleo e dos cereais é mais conjuntural (provisório). Quanto ao petróleo a OPEP declarou recentemente que ja nem adianta aumentar a produção: o preço resulta sobretudo da especulação. Quanto aos cereais a tendencia para a subida já era esperada mas com esta rapidez e dimensão não. Será que os chineses (agora a culpa é sempre deles) em vez de uma tigela de arroz passaram de repente a comer 3 e ainda trigo, milho, etc? A culpa aqui deve ser muito da rigidez dos mercados.E o grande perigo é que atinje os mais miseráveis.
 
Belarmino
Lá se foi o "saquei" por agua a baixo,vou regressar á aguardente vinícola, não sabe tão bem, e o meu rico arroz de pato,será que vai aumentar. SLB forever. Tudo em cima manos.
 
lc
Se ninguém estava preparado para o aumento brusco da procura de energia e alimentos, houve no entanto quem se apercebesse rapidamente das possibilidades de ganhar dinheiro com esta situação. O aumento do risco noutras aplicações levou os especuladores a canalizarem capitais para as novas oportunidades de lucro oferecidas pelo investimento nas matérias-primas, destacadamente para o sector da alimentação. Para os especuladores é indiferente se a sua acção contribui para o aumento da fome e da miséria, pois apenas o lucro os motiva. Diferente é o caso dos defensores dos biocombustíveis, cujas boas intenções em prol do ambiente e de melhores rendimentos para os agricultores pobres estão a ter um efeito perverso. Afinal, estas culturas não estão a contribuir para a redução da poluição do planeta, a pressão sobre o meio ambiente está a aumentar - como acontece na Amazónia - e as culturas tradicionais estão a ser trocadas pelas destinadas aos biocombustíveis e levando à redução das provisões de cereais em vários países. É urgente que os defensores dos agro-combustíveis reconheçam os problemas que involuntariamente criaram e se mobilizem para que os governantes adoptem as necessárias medidas de correcção.
 
sebastião
Este rapaz até vê bem a questão. Põe a a tónica na única e verdadeira questão: a energia e os recursos. Há que aprofundar esta tese! Pouco a pouco a linguagem dos políticos e dos economistas vai mudando; começou por ser “incerteza”, passou a “crise”, já há quem fale em “recessão” e não tarda nada ouviremos falar de “colapso”. Deus nos livre da palavra "caos".
 
FS (xsaldanha@oniduo .pt)
As crises que nos incomodam são aquelas que já passámos, as que estamos a passar , e toda a informação que temos acerca daquelas que eventualmento podem vir a acontecer.O pior são as crises que mesmo assim , apesar de tudo, nos podem vir surpreender sem que estejamos preparados.Não é coisa muito interessante.
 
Paulo Monteiro (paulo.from.portugal@gmail.com)
Ora ai esta um bom assunto para o secreto Bilderberg Group ajudar a resolver em inicios de Junho na Europa! O Sr. Pinto Balsemao deve saber de alguma coisa, se for convidado outra vez. Com estas 3 crises so' se prolonga a crise humanitaria e la' se vao os objectivos do Milenio agora nem o micro credito ajudara'. Daqui a 3 anos estamos a recuperar da crise e daqui a 11-13 anos teremos outra crise mundial (baseando-me nos ciclos economicos anteriores) porque a economia precisa sempre de uma area para fazer a economia do ocidente dar o salto. Daqui a 6 anos se calhar ja teremos o EURO como a moeda de reserva monetaria mundial substituindo o dollar. Mundancas ocorrerao todos os dias o importante sao as accoes que ocorrem dessas mudancas onde devemos olhar para o passado para evitar cometer os mesmos erros no futuro. Enfim foi a minha posta de pescada!
 
Clara
A crise não se instalou o ano passado, mas há cerca de dois anos. Memória curta a do autor da crónica. Até agora ainda não li nenhuma crónica que concluísse de forma inteligente as causas desta crise a nível mundial. E as causas não são apenas o sub-prime, a inflação, a falta de liquidez, o aumento do preço das matérias-primas, combustíveis e bens alimentares devido ao aumento da procura. Estas razões serão responsáveis em média por 60 por cento do problema, mas há outras que muitos parecem ignorar e é preciso acrescentar: o mercado dos "futuros" e outros fundos, em suma, a economia especulativa. Estranho é que ninguém tivesse previsto este cenário. E ninguém tivesse feito nada para o travar. Não se estranhe agora que atinja todos e de forma estrutural.
 
Licinio Castro
As pessoas não se devem preocupar porque temos muito que comer. Não faltam Auto-Estradas,Aeroportos, Estádios de Futebol, Expos, Pontes, Centros Culturais e quejandos.Portanto, os diversos governos que nos desgovernaram investiram muito bem o dinheiro que tiveram à sua disposição, isto é um País de Inteligentes.Então na Educação é uma maravilha. É só doutores prontos a arregaçar as mangas e vestir fatos macacos para começar a produzir riqueza.
 
 
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