Editorial


Trigo limpo

Portugal tem um grave problema energético. Somos o segundo país da União Europeia com maior taxa de dependência. Importamos mais de 85% da energia primária que consumimos.

André Macedo

Além de dependentes, para produzirmos um euro de riqueza gastamos 2,5 vezes mais energia do que os franceses; 2,3 vezes mais do que os alemães; 1,5 vezes do que os espanhóis. Perante este cenário, o país só tem duas saídas para sobreviver e competir: melhorar a eficiência energética e encontrar fontes alternativas.

Em relação a este segundo ponto, parece trigo limpo. O incentivo do Estado nos últimos três anos é claro, os subsídios às energias renováveis vão de costa a costa, do biodiesel à energia eólica, da fotovoltaica às ondas do mar. A produção caseira, conhecida como microgeração, também faz parte do cardápio nacional e tem o mérito de envolver as pessoas concretas, não apenas as empresas.

Por tudo isto, o optimismo é evidente, embora às vezes excessivo, e ajuda a disfarçar a forte subsídio-dependência em que se movimenta todo este mercado ainda sem pernas para andar sozinho e com um quadro regulatório à procura de constante afinação. Depois de anos de incúria e bebedeira de petróleo, talvez seja este o preço a pagar: o mercado não funciona sozinho, é inevitável o incentivo do Estado para dar um rápido salto em frente, embora isso também signifique dinheiro mal gasto e a aposta em negócios privados que não sobreviveriam sem os generosos bolsos públicos.

Acontece que este não é o único problema. Para ser coerente e eficaz, esta aposta do Governo deveria implicar um passo seguinte: ou seja, políticas centradas na poupança do consumo e na penalização dos excessos. Não há revolução verde sem mudança de hábitos. Não basta produzir diferente, é preciso consumir diferente. A começar nos transportes, que absorvem mais de um terço da energia gasta em Portugal e onde o desperdício é mais gritante -- e fumegante.

Como se nota sem esforço, Lisboa e Porto rebentam todos os dias pelas costuras, não aguentam mais carros. O que está a ser feito para travar este AVC urbano que nos lavará à paralisia? As cidades investem em mais túneis e parques de estacionamento, convidam mais automóveis a entrar, fazem sistematicamente o contrário do que deveriam. Se nos lembrarmos que 90% da energia gasta no transporte em Portugal é consumida nas estradas está tudo dito. Ao mesmo tempo que apoia a produção de energias verdes, o Estado não penaliza o desperdício que acontece todos os dias nas cidades. Ou seja, o esforço anterior vai directo para o lixo. Neste caso, a energia não é renovável. É puro desperdício. 

Comentários
 
vg
Toda a energia renovável só compete com o petróleo com subsídios ,enquanto o "crude" produz receitas fiscais.Taxas para entrar em Lisboa e Porto ,como fizeram em Londres, com sensores do tipo "via verde" e vídeo-controle...
 
NapoLeão
Para quê poupar se os exemplos vindos de cima são pouco exemplares ?. Os clubes da bola "têm a classificação de utilidade pública". Então, porque realizam os jogos à noite e não aos sábados e domingos à tarde ? Será para ajudar a EDP ?
 
Jose
Algumas notas: 1) José Sócrates diz que é um especialista em questões ambientais; 2) Quer maior penalização do que cada litro de gasolina significar mais 1 euro de impostos? 3) Portugal não é produtivo? O PM diz que a agricultura está em expansão! 4) Não se percebe porque é que está preocupado, no fundo o "motorista" Sócrates leva o carro para o melhor dos abismos.
 
Tribunus
Devemos ir em 40 anos a pensar em energia atómica! Quanto poupava-mos se tivessemos tomado uma decisão? claro que uma data de individuos, não tinham o saco cheio, em contrapartida o país está de rastos (não para o Socrates & Ca mas o trambolhão vai ser alto.........
 
João Quaresma
Não deve avaliar o Estado pelo que diz mas pelo que faz. Por exemplo, fala-se muito que é preciso substituir ao automóvel privado como forma de transporte. Muito bem: então faça-se como nos outros países e aposte-se nas motos e motorizadas como alternativa. Mas Portugal é o único país da UE que ainda não transpôs a directiva comunitária que dá, a quem tiver carta de condução de automóvel (Tipo B), a autorização para conduzir motos até 125cc. Aliás, o Estado Português tem feito precisamente o contrário: desde Março de 1998 que não se pode conduzir nem uma moto de 50cc.
 
Jorge A.C.Marques (jorgeacmarques@sapo.pt)
Concordo com o articulista mas tem que acrescentar a energia nuclear.Por outro lado os preços de produção das energias alternativas têm que ser mais baratos do que o petróleo e se as viaturas consomem 90% da energia que consumimos como diz( ???? ) é na industria automóvel que está a solução e essa não depende de nós.Criticar é fácil mas solucionar é muito mais difícil.A industria petrolífera vai esticar os preços até onde puder e quando verificar que pode haver alternativa ao petróleo desce os preços para rebentar com a concorrência.Qual a solução?Voltar á carroça?
 
jgt
E que dizer do imposto sobre produtos petrolíferos (????) que tem de pagar quem usar óleo de cozinha no carro ( mesmo se o óleo já foi usado )? Em primeiro lugar está a cobrança de impostos; impostos esses que vão parar ao bolso de empresas PIN (Políticos INtegrados no quadro ).
 
FS (xsaldanha@oniduo .pt)
Os portugueses andam há 30 e tal anos a ouvir dizer que a vida vai melhorar e que foi para isso que se fez a revolução.Então é agora que se lhes vai dizer que não podem andar no seu automóvel?Então é agora que se lhes vai dizer que não podem ir de férias de automóvel ou passear o fim de semana de automóvel?O automóvel faz parte do bem estar deste povo , tal como para os americanos.
 
vÍTOR
SÓ DAREMOS O VERDADEIRO SALTO QUANDO OS NOSSOS FANTÁSTICOS EMPRESÁRIOS DEIXAREM DE IR BUSCAR OS CAMIÕES, MAIS DIVERSA MAQUINARIA PESADA E NÃO SÓ AOS PAISES DITOS AVANÇADOS, AO PREÇO DA CHUVA, SOBRANDO-LHES ASSIM DINHEIRO PARA MAIS UNS MERCEDES, E ALGUMAS AMANTES.... E OUTROS DIVERTIMENTOS DIGNOS DE HOMENS DE VISÃO.... cOMO É EVIDENTE DEPOIS QUEREM SUBSÍDIOS , APOIOS E TAXAS ESPECIAIS QUE OS SUCESSIVOS GOVERNOS ALEGREMENTE, E EM NOME DE TODOS NÓS, DÃO COM TODA A EFICÁCIA.....
 
anibal barca
Se não se morre da doença, morrer-se-à pela cura. No dia em que dificultarem o acesso a Lisboa, do que passarão a viver os comerciantes pequenos e médios?
 
Mrrm
Esta das colheitas para o biodiesel serem agora muito caras está muito mal contada. As melhores fontes não são nem a cana do açúcar e muito menos o milho. São o óleo de coco, as algas laminárias, os fungos e até o leite. Mas há outras. O vinho, a fructose (maçãs), a cerveja, o café, a adição de Vitamina E a quase todas as plantas (incluindo as chamadas "ervas daninhas" dos baldios),o Miscanthus (um arbusto muito comum),os intestinos das térmitas (não queiram ver as fotos, mas é verdade), a Jathropa (uma baga da América Central que os portugueses espalharam pelo mundo), os cogumelos, as nozes, os organismos sintéticos (bio-engenharia), a lenhinha, o micróbio Q, nabos e nabiças, a serradura, a beterraba, os óleos vegetais, a xylose e ainda, que me lembre, a Zeolite. Quem olhar para as oportunidades vê-as com profusão e quem preferir só ver petróleo e impostos continua apenas viciado na tecnologia e na contabilidade públicas com mais de 100 anos. Suicídio alegre e sempre a acelerar. MMartins-Sintra
 
Sdaburra
Já Keynes dizia: " A verdadeira dificuldade em mudar qualquer empreendimento não está em desenvolver novas ideias, mas em livrar-se das antigas". Um nutricionista dizia para o seu paciente que lhe perguntava o que é que deveria fazer para emagrecer: " Pergunte-me antes o que deve deixar de fazer!...". No déficit público a mesma conversa: deve-se equilibrá-lo, promovendo medidas que evitem a despesa exagerada, em vez de sacar impostos a quem já não pode pagar mais, como faz este governo. Na energia não poderia ser de outra forma: ou poupamos a sério, racionalizando os consumos em tudo que é possível racionalizar, desde os transportes até à produção, passando pelos consumos domésticos ou vamos dar-nos muito mal a muito breve trecho!!! O problema é que o pessoal não está para mudanças. Está tudo muito sedimentado. Só uma valente crise com racionamentos e cª vai obrigar as pessoas a fazer aquilo que, voluntariamente, se negam terminantemente a fazer.
 
alberto
Portugal é uma desgraça colectiva em termos de gestão dos recursos. Quando comparamos certos indicadores parece que o país ainda não saiu das trevas. O consumo energético por unidade de produto é um deles, mas há que reconhecer que o governo não é culpado de tudo o que é mau; os hábitos e cultura dos tugas é uma desgraça, só à força ( neste caso só com racionamento ) é que vão lá. É trite mas é verdade.
 
abel domingos
Se, conforme diz o texto, 90% do consumo energético de Portugal é na estrada estamos a investir em energias alternativas para resolver 10% ? Que raio de planificação é esta ?
 
Ze
abel domingos Se, conforme diz o texto, 90% do consumo energético de Portugal é na estrada estamos a investir em energias alternativas para resolver 10% ? Que raio de planificação é esta ? é esta a pergunta que faço tambem . para que gastar os recursos escasos do país em algo que nao resolve nada ?
 
 
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