Editorial


Venha o próximo

Para as pessoas, tanto faz que a Polícia Judiciária esteja na alçada do Ministério da Agricultura, no Ministério do Ambiente ou debaixo do longo braço da Justiça.

André Macedo

Para as pessoas, a única coisa que verdadeiramente importa é que a PJ seja dotada de uma liderança forte, séria e capaz de combater o crime com eficácia e em tempo útil. Infelizmente, a equação não é assim tão simples. Não há só ladrões, polícias e tribunais. Há interesses ocultos, mãos escondidas, pressões constantes, convivências e cumplicidades de todo o género, cor e feitio. Há política a mais onde só deveria haver Justiça.

Há dois anos, quando Alípio Ribeiro assumiu o cargo de director-nacional da PJ, foram quase só elogios. Competente, independente, sério, experiente. A unanimidade era o traço comum. Ontem, quando Alípio Ribeiro saiu de forma previsível – depois de uma entrevista certeira que quis dar ao Diário Económico –, ouviu o mesmo que quase todos os outros directores-nacionais da PJ ouviram quando também renunciaram ao mandato: frágil, enfraquecido, derrotado, incapaz, uma lástima. Ou seja, mais um erro de ‘casting’, mais uma aposta falhada, dois anos de trabalho para o lixo.

A coreografia é conhecida, repete-se de dois em dois anos, como se fosse de todo impossível aprender com os erros cometidos e encontrar o enquadramento certo para fortalecer e blindar a principal polícia de investigação criminal portuguesa. Pelos vistos, não é possível. Entrada em ombros, saída pela porta dos fundos. O destino é este. Espanta que alguém aceite sempre ocupar o lugar, mesmo nas piores condições. Mesmo sem meios e garantias de futuro. Mas o poder é assim: há sempre alguém disposto a ocupar o espaço vazio.

Ontem, portanto, foi um bom dia para os criminosos. Mais uma mudança no topo da PJ, mais uma etapa que não se cumpre, mais um líder queimado e que deixa em trânsito investigações importantes e sensíveis. Investigações que têm sempre um cunho pessoal e que agora perdem a sua dinâmica natural. O custo destas reviravoltas é incalculável. Tornam o ambiente mais perigoso. Aumentam o sentimento de insegurança. Corroem a confiança nas instituições. Desmobilizam. Numa frase: debilitam o Estado de Direito. Não há economia que resista a tanto safanão. Se a PJ fosse uma empresa, há muito que tinha declarado bancarrota.

Podemos e devemos discutir o caso Maddie, o Apito Dourado, a Operação Furacão. Discutir é um teste de esforço a que a Justiça deve ser sujeita como exercício de transparência. Mas o outro verso da moeda é igualmente importante: a PJ tem de ser protegida, fortalecida; não pode ser usada como joguete entre partidos e entre os lóbis que se alimentam no Ministério da Justiça e da Administração Interna. Alípio Ribeiro foi-se. Venha o próximo.

Comentários
 
NapoLeão
"Manter oleada a máquina da Judite" não é para teóricos mas sim para aqueles que esgravatam, diariamente, na complexidade do mundo do crime. O dr. Alípio é um homem cheio de sorte. Experimentou e, como "teve azar" entregou a chave. Fez bem. Merece umas férias descansadas e dispor de tempo para ver a selecção levar umas cabazadas na Suíça...
 
DPSilva
Alípio Dias disse uma coisa que me chamou a atenção: "há muita política dentro e fora da PJ". Ora fora da PJ é normal que haja política, dentro é que não é aceitável. O cidadão, quando vê fugas para os jornais de notícias convenientes de processos em segredo de justiça, já desconfia que há política a mais nas polícias e nos meios judicias. Basta ouvir os seus porta vozes sindicais. Ouvi hoje com atenção o presidente da Associação Sindical dos Juizes fazendo insinuações políticas sobre leis a aprovar e sobre a independência do próximo Director da PJ. Para além da posição corporativa do costume, o Juiz ofende o polícia nomeado, por mérito próprio. Só gostaria de lembrar ao presidente da ASJP que alguns dos seus colegas foram corridos da Dircção da PJ por razões que abonam muito pouco o orgulho da classe. Por isso um pouco mais de humildade nas suas intervenções seria aconselhável. Mas isso será pedir demais.
 
vg
Devia pôr-se um magistrado à frente daquilo.Sem a disciplina legal, aqueles policias "excepcionais" andarão em rédea solta.Alípio teve o mérito de dizer que o caso Maddie naõ tinha consistencia.Alguem de bom senso pensa o contrário?
 
jpcarreira (jmpc2@sapo.pt)
Lamento sinceramente que a PJ ande metida regularmente nestas andanças e esta situação causa-me algumas estranhezas; 1º será que a nova lei orgânica da PJ não foi discutida entre o ministro e o responsável da PJ? 2º se foi, por que carga de água vem o Dr AR emitir opinião contrária à posteriori? 3º Isto não foi uma forma encontrada pelo Dr. AR para bater com a porta? 4º Como é que vai ser a partir de agora a relação da PJ com os magistrados? Identifico-me completamente com o texto do jornalista André Macedo e comungo das mesmas preocupações.
 
Jose
Alguém se lembra de Guterres por bons motivos? Não. Mas, quando lá estava, dizia-se que era o "melhor"....Portugal renascerá daqui por algumas décadas. Talvez.
 
Em todas as áreas!
Este Portugal de abril está assim em todas as áreas. Destruiram tudo!
 
 
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