Editorial


Viver sem o euro

Por norma, só se dá valor a qualquer coisa quando a perdemos.

Bruno Proença

No dia-a-dia, ninguém valoriza a electricidade mas quando chega a casa e não tem luz, percebe que já não sabe viver sem o computador, a televisão e todos os outros electrodomésticos. Da mesma forma, já não sabe viver sem o euro.

Se tiver à sua disposição uma cápsula do tempo, não vai querer regressar aos anos 80: os tempos em que o escudo era rei. Os juros e a inflação estavam nos dois dígitos. E recorrer ao crédito bancário era um luxo apenas à disposição da aristocracia nacional. Além disso, o escudo era usado da pior maneira enquanto parte fundamental de política câmbial. As famosas desvalorizações que serviam para disfarçar a falta de competitividade das empresas nacionais e roubar poder de compra às pessoas.

Quem na década de 90 liderou as campanhas de recolha de assinaturas contra a adesão ao euro, deve hoje corar de vergonha. O tempo provou, sem margem para dúvidas, que estavam enganados. O euro é um sucesso. Teve os seus momentos maus no início da década mas a sua cotação actual contra o dólar é a prova que é uma moeda credível em termos internacionais. Ainda está longe o dia em que o euro vai suplantar o dólar como a moeda mais importante mas só o facto dessa hipótese estar em cima da mesa é mais um sintoma do sucesso.

Isto é também o resultado do êxito do projecto europeu em termos políticos e económicos. Apesar de todos os seus problemas, a União Europeia é hoje um espaço de paz, estabilidade social e desenvolvimento económico. É bom viver na Europa e beneficiar da sua qualidade de vida. Portugal também beneficiou disso desde que entrou para o projecto de integração europeia e fez um esforço considerável para ser fundador do euro. Apesar de continuar a ser um dos países mais pobres da Europa, a verdade é que houve um salto inegável em termos de desenvolvimento.

Com a adesão ao euro, os portugueses passaram a beneficiar de juros mais baixos e de maior estabilidade na condução da política económica. Isto facilitou e generalizou o recurso ao crédito. Comprar casa, carro, ir de férias passou a estar ao alcance da maioria da população. Os altos níveis de endividamento mostram que existiram abusos. Ainda assim, subiu-se um degrau que já ninguém está disposto a descer. Portugal entrou numa nova etapa da sua maturidade económica.

Posto isto, é preciso recordar a máxima dos mercados: ganhos passados não são garantia de ganhos futuros. Os primeiros dez anos de euro merecem ser celebrados mas e agora? É preciso mais. A Europa tem de prosseguir o seu projecto de integração económica ou vai acabar por partir. Já tem uma política monetária comum, falta agora um verdadeiro governo económico que garanta a implementação das políticas correctas para promover o crescimento e o emprego. O Pacto de Estabilidade e Crescimento é ainda uma experiência muito frágil, embora tenha o mérito de mostrar a dificuldade do caminho. Mas terá de ser feito. A actual situação é insustentável. Não se pode ficar a meio da ponte. Ou se volta para trás ou se passa para a outra margem. Portugal só pode defender um caminho: ir para a outra margem e a correr.

Comentários
 
vg
Os portugueses têm de entender uma coisa:ganham e gastam em "marcos".Poucos ,mas a moeda que sempre foi mais forte da Europa(continnetal) nos ultimos 50 anos.Impensável ,há vinte anos..
 
cabo T Macieiras (marco1alm@hotmail.com)
Oh VG ai discordo um pouco, as pessoas ganham em escudos (contos) e recebem e gastam em euros o que é bem diferente.
 
NapoLeão
Calma aí: "Ir de férias passou a estar ao alcance da maioria" ? O que é a maoiria ? Cinco milhões de almas ? Oh meu caro Bruno: Costuma sair de Lisboa e viajar até ao interior, Alentejos e Beiras ? Calma com os foguetes ! Sem a Alemanha exportadora...estaríamos de cócoras. E, não será com a UE nas mãos do camarada Barroso que a coisa vai melhorar. A América tem " uma balança comercial moribunda e o bilhete verde de gatas" ...à equipa do camarada George o deve. Divertidos e apaixonados andam os camarada Putin, Sílvio e Nicolas...
 
Realista
Algumas verdades e algumas fantasias. É verdade que ninguem no seu perfeito juizo quer voltar ao escudo. O Euro veio para ficar. Mas o facto de o Euro bater o pé ao Dolar a mim (e a muita gente) não me dá gozo nenhum. Preferia uma relação Euro-Dolar mais equilibrada. O obectivo do BCE (seguindo alemães e holandeses)do controle da inflação, sem atender a outros aspectos, tambem não me faz feliz.
 
Mrrm
Liberdade de circulação de Pessoas, Mercadorias e Capitais. Continua a ser o grande objectivo da UE. Em mercadorias foi atingido, o que explica em boa parte o sucesso do euro. Mas a liberdade de Pessoas ainda é uma miragem (qualquer escocês que queira viver e trabalhar em Portugal passa um calvário de burocracia)e a de capitais muito deficiente. Podem-se fazer transferências, como é óbvio, e sem risco cambial, o que é fabuloso. Mas experimente lá uma gestora portuguesa vender por exemplo PPR's fora do território nacional. Experimente lá a República Portuguesa vender OT's ao mesmo preço do Reino dos belgas. A disparidade de políticas fiscais só encontra um paralelo, agora positivo, na linguística. Há portanto muito mais a fazer (2/3) do que já foi feito (1/3). Falta completar a CEE para a UE avançar. Anda a Europa muita distraída com muita papelada (58 mil páginas de Acquis mais uns belos milhares com o tratado de Lisboa e a sua regulamentação subsequente) e pouco sentido prático. De resto recomenda-se. MMartins-Sintra (no nariz da Europa, daqui cheiramos tudo)
 
Jose
Só quem é tolo, pode sonhar em voltar para trás! O mal da economia portuguesa não é o Euro. O Euro foi o melhor que aconteceu a Portugal, desde o 25 de Abril. O problema de Portugal é o Estado que consome todos os recursos da nação (11% + 23% para a Segurança Social? 21% de IVA? 42% de IRS? 32% de IRC? 60% do valor da gasolina para impostos?). Os Deuses estão loucos.
 
luisão
o euro só serviu para o aumento de todos os produtos (veja-se 1 bica 2002 -50 escudos; 2008-0,60€, ou seja, mais de 120 escudos)e para todos os produtos. Assim, não, senhor comentador!
 
António Aleixo
Então a realidade de uns não é a de outros!!! Um milhão ainda estão na boa,só o restante está cada vez pior.Ricos mais ricos é Portugal.
 
gs
Com o euro a situação está difícil, e a crise não é portuguesa, é mundial, mas sem o euro estaríamos muito pior. Se alguém tem dúvidas que olhe para Inglaterra.
 
AcordaJorge
O Euro já cá está desde 2002 e agora não podemos andar para trás. A desvalorização do USD é um grande problema para as exportações europeias e o desaparecimento do Euro seria a falência das famílias, empresas e banca portuguesa. Como pagar taxas de juro de 2 dígitos, na actual crise de liquidez? Seria a depressão nacional.
 
Mais um
Sr. Jose, quanto ao 25 de Abril, não é bem assim. Se hoje Marcello Caetano estivesse a governar, tenha a certeza de que estariamos mais desenvolvidos do que actualmente (apesar de estarmos no grupo dos países desenvolvidos), teriamos toda a democracia que temos hoje (a censura já tinha sido «adocicada», estava a caminho de ser extinta) e não haveriam guerras cívis nas ex-províncias ultramarinas (pois não seriam independentes, e toda a gente que é gente sabe que as relações entre europeus e os indigenas na África colonizada por nós era bem diferente do que na restant África colonizada). Por isso, acho que está errado; Marcello Caetano foi o melhor que nos aconteceu (e não o pesadelo pseudo-socialista que foi entre 1974-1986).
 
Vejamos
A maneira como fizeram o 25 foi o pior que poderia ter acontecido a Portugal. Gente pouco competente, deixaram cair Portugal numa apagada e vil tristeza. quem percorre o país apercebe-se de que está tudo teso, está tudo parado.
 
Hugo Santos Silva (hrsilva1973@gmail.com)
Aquilo que falta para que o USD seja ultrapassado pelo €uro enquanto moeda de referência a nivel mundial é desenvolver o 3º Pilar da UE. Para quem não saiba, o 1º pilar é constituido pelo conjunto de Tratados que instituiram e desenvolveram a CEE/UE, e estruturam, principalmente, a sua politica Social e Económica (exs. Tratado de Roma, Tratado CECA, Tratado de Maastricht, Tratado de Lisboa); o 2º pilar é composto pela CJAI - Cooperação Judiciária e Assuntos Internos, sendo que este pilar encontra-se já relativamente bem desenvolvido e estruturado na UE; finalmente, o 3º pilar corresponde à PESC - Politica Externa e de Segurança Comum; deste pilar resulta o famigerado "exército único europeu", o qual se consubstancia na existência de uma politica externa comum na UE, nas vertentes de Negócios Estrangeiros e Politica Militar. No dia em que a UE consiga finalmente colocar em práctica a sua PESC, e os seus 27 Estados-membros (ou mais, no futuro) passarem a falar a uma verdadeira só voz, evitando-se assim embaraços diplomáticos da magnitude do sucedido com a 2ª Guerra do Iraque, então a UE terá todas as condições para finalmente ultrapassar os EUA na hegemonia da cena internacional, e então tentar bater-se de igual para igual com o mais que previsivel novo Império Mundial da 2ª metade do séc. XXI: a China. Vai ser com ela, nessa segunda metade do século, que a UE terá de ombrear, e nessa altura o €uro forte, a par da manutenção, mitigada, do "Wellfare State" Europeu, poderá ser o seu único trunfo nessa luta de Titãs.
 
Lol
Acho graça àqueles que ainda sonham com a África portuguesa. Podem-se se juntar aos que pensam ainda que "os amanhãs cantam". Sempre nos faltou visão e pragmatismo. Os "ventos da história" infelizmente chegam sempre atrasados a Portugal. Daí o seu estado de desenvolvimento deficiente crónico. A CE, o Euro e a democracia foi o que de melhor nos aconteceu. Sem isto a nossa situaçpão seria catastrofica.
 
António Pinho
O problema não está no euro mas sim na política monetária. A Europa (euro) é como um velho que anda devagar e demora muito a chegar ao destino. Por sua vez, os EUA (dólar), são como uma criança que corre, cai e esmurra os joelhos mas no entanto levanta-se rapidamente, limpa a areia dos joelhos e continua a correr para o objectivo. Ainda ninguém se apercebeu verdadeiramente o que se passa na economia americana mas no entanto esta está muito mais competitiva e muito mais apetecível para os países do oriente que, neste momento, são aqueles que mais crescem. Como exemplo para explicar melhor o que se está a passar podemos olhar para estas duas empresas, a Boeing e a Airbus. A primeira não para de bater recordes de vendas enquanto a segunda vai-se contentando com algumas vendas, principalmente, a países da Europa. Ainda há bem pouco tempo a Airbus congratulava-se em vender 6 aviões à Tunísia enquanto que a Boeing fechava contrato de 60 aviões com a China. Esta é que é a verdadeira diferença do que se está a passar no mundo. A economia americana está a ajustar-se rapidamente à nova realidade económica mundial. E a Europa, o que faz? Fecha-se nela e tenta combater a inflação. O tempo vai passando mas no entanto as empresas americanas vão conquistando importantes fatias do novo bolo económico mundial. O dólar não está a cair assim tanto. O que está sobrevalorizado é o euro.
 
Leonel Duarte (leoneljorge@lnetcabo.pt)
Viva o Euro € ! Viva!!!!! Foi o melhor que nos aconteceu!!!! Weeeeeeeeeeeeeee!
 
Mrrm
Agradeço a enumeração e a argumentação a Hugo Santos Silva, é sempre gratificante verificar que há quem esteja bem atento. Para complementar e reforçar a sua exposição, até me permito uma afinações: a economia da UE já é maior do que a do EUA, e a da zona-Euro, por si só, também. Não se esqueça do factor demográfico. Agora os pilares. Tanto pilar é precisamente o problema da Europa. É que para estes assentarem, faltam 2/3 dos caboucos. O seu 1º Pilar ainda não tem onde assentar. Logo o 1º. Quanto ao que o euro vale contra o USD, cuidado que o assunto é anti-intuitivo. Se ponderarmos o factor comércio bilateral EUA-EU (trade- weighting) , as moedas estão muito mais equivalentes do que parece. Os fundamentos do Euro estão mais saudáveis do que os do USD, mas este último encerra uma flexibilidade e diversidade maiores. A faceta jurídica do euro é importante, mas não lhe dê tanto peso. Qualquer moeda é sobretudo uma abstracção psicológica colectiva a que chamamos confiança. MMartins-Sintra
 
FS (xsaldanha@oniduo.pt)
Eu gostava de ver o que seria este país sem o clube Europeu e sem o Euro.Mas qualquer dia aínda há-de saír o livro a contar o que era este país quando era sede do império Euro , Afro ,Asíatico.
 
Hugo Santos Silva (hrsilva1973@gmail.com)
Obrigado pelo elogio e troca de opinião, Mrrm. Penso que a abstracção psicológica colectiva - confiança - é, de facto, o essencial na moeda; concordo plenamente. Penso é que, se a classe politica Europeia ajudar(ajudasse?!), essa confiança poderá(ia) ser bem maior, o que só ajudava mais o €uro e a economia Europeia, não concorda? Até porque são precisamente as implicações politicas (Guerra no Iraque, Afeganistão, tensão com o Irão...) da Administração Norte-Americana, entre outras coisas, que estão a contribuir para a queda do USD. Cumprimentos, e votos de bom fim-de-semana para todos os leitores.
 
costa
ó sr. editor,que visão fantástica o sr. tem do EURO!...sabe,o euro está para uma maioria dos portugueses(porque é desses que estamos a falar)como estava o automóvel na década de sessenta,vian-se a passar na rua,não eram nossos,e para ter-mos o prazer de dar "uma voltinha"alugava-mos um táxi.Agora para se dar uma voltinha com os ditos euros contrae-se um enpréstimo que terá de ser devolvido,porque tal e qual como o táxi também tem um dono.Assim sendo,teremos que ver as centenas de milhares de potugueses que auferem por cada mês de valores entre os 250 e 400 mìseros eurinhos!ser €uropeu asim!...
 
plebeia
euros, escudos, marcos.... è só dinheiro, economia, engenharia financeira, vida virtual! Especulação, dependentes, amarrados, liberdade sem liberdade, democarcia sem democratas, como um mar que aprisiona navios, dia disto, dia daquilo, da descuidada infância, da ressequida velhice, Confusos atentos, ciberneticos, esbaforidos em retroactivo desiquilibrio, anjos e diabos, riqueza, consumo, gente poluida, perdida, produtiva, faminta, afogada no medo, de olhar sombrio, ombros vergados.... que mensagem?!... Sociedade errada fazendo a sua propria historia.
 
 
envie o seu comentário
 
nome:
email (opcional):
comentário:
Os comentários enviados serão publicados após aprovação. O DE reserva-se o direito de não publicar comentários considerados como ofensivos ou sem ligação alguma ao artigo em questão

Publicidade

Serviços ao Investidor




[an error occurred while processing this directive]