Editorial


O pecado do lucro

A guerra do público contra privado na prestação de cuidados públicos de saúde teve ontem um novo episódio no Fórum Saúde, a conferência promovida pelo Diário Económico que há sete anos desempenha o papel de palco de referência para o debate entre os principais protagonistas do sector.

Pedro Marques Pereira

A ministra da Saúde, Ana Jorge, reafirmou a visão que tem do papel dos privados e fê-lo com todas as letras: os habituais três “pês” das parcerias público privadas, mas na variante infra-estrutural. “Isto é” – explicou – “parcerias em que a gestão clínica é responsabilidade do Estado enquanto ao privado caberá a construção do equipamento e a manutenção do edifício, podendo também ser abrangidos serviços complementares de apoio”. Munida dos últimos resultados dos hospitais públicos, que mostram uma melhoria de 114 milhões de euros nas contas dos hospitais SA e lucros de 6 milhões nos EPE, concluiu que “um serviço público bem gerido com elevada produtividade e qualidade dá resultados positivos”. Gabe-se o idealismo da ministra, bem como a coragem de dizer o que pensa num fórum em que sabia que a mensagem seria impopular. Tudo seria perfeito, não fosse a mensagem errada.

Como lembrou Pedro Pitta Barros, um dos maiores especialistas na matéria, independentemente da ideologia, seja no público ou no privado, são sempre as populações a pagar a factura – através dos seus impostos, seguros de saúde ou contribuições para subsistemas. Se o privado conseguir executar os mesmos serviços com maior eficiência, todos ganham, incluindo o sector público, forçado a tornar-se eficiente para competir.

O pecado mortal de que alguém possa ganhar dinheiro com a desgraça dos outros foi desmistificada por Isabel Vaz, presidente da Espírito Santo Saúde, citando uma passagem de um ‘Economist’ recente: “Cada dólar poupado pela utilização de procedimentos mais eficazes é sempre um dólar de rendimento de alguém”.

Apesar do dólar – ainda que subliminarmente – remeter para práticas de liberalismo selvagem, a verdade é que a frase se aplica com igual propriedade em euros. E torna-se ainda mais verdadeira e exemplar do caso português quando virada ao contrário: cada euro desperdiçado hoje em dia pela utilização de procedimentos menos eficazes continua a ser um euro de lucro de alguém. Porque é evidente que o principal problema da saúde são os grupos parasitários que se alimentam deste desperdício. Sejam grupos privados que fornecem todo o tipo de serviços e produtos quase sem controlo, sejam grupos de funcionários que nunca teriam os tranquilos empregos sem trabalho a que se agarram nos hospitais públicos. Traçar o diagnóstico de que a doença passou com base nos resultados de um ano em que todo o Estado apertou o cinto não só é perigoso, como pode ser mortal. 

Comentários
 
NapoLeão
A Saúde é uma coisa muito séria e tal como a Educação ou a Água deviam ser "assuntos soberanos" só garantidos pelo Estado. Vejamos o "rebuliço" que corre em Espanha por causa da Água e tiremos conclusões. A Educação do Superior pode ser dividida com o Estado mas a Saúde num País de "velhos e pobres" tem que ser garantida pelo Estado. Para o Privado deixem as operações "plásticas" ! Em França, o SNS francês funciona muito bem. Porque não por cá ?
 
Barão Assinalado
Porque é que as Escolas do ensino básico não têm visitas frequentes de dentistas e oftalmologistas ?
 
vg
Não há preto e branco nesta questão.A minha mulher foi operada às varizes, através de uma seguradora,num hospital privado.Custo da mão de obra médica,1800 €,custo de sala +uma noite 3.500 €.É claro que isto é um roubo,mas a resposta existe no privado e não no público.Porque^?Porque no público não há consciencia empresarial.Profissionais bons,mas total desprezo pelos utentes/clientes.Ministros da Saúde e dirigentes incompetentes.Rua com eles!..
 
AcordaJorge
Por cada dólar investido pelos fundos em aplicações sub-prime, quantos dólares estamos hoje a pagar a mais? Com os Nossos Bancos endividados e pouca liquidez, o controle e a regulamentação são necessários, para combater a ganância do lucro selvagem.
 
José Lopes (jaglopes@gmail.com)
É verdade que o privado tem uma maior capacidade de resposta e consegue fazer uma gestão mais racional em tempo real, o que é quase impossível com o estatal. Contudo quando tomámos partido e lutamos por um privado melhor e mais abrangente acabamos por no curto prazo entregar tudo aos grupos económicos mais fortes e com poder real na economia Por muito bem que estes funcionem, nunca mais há espaço para que qualquer cidadão, especilalista ou empresa, possa fazer um contrato ou convenção com o estado, pois esse mesmo privado tomou conta de tudo. E no tudo incluo como exemplos a ida do Jorge Coelho para o privado e o recente contrato do Hospital da Luz com a ADSE, pois para qualquer especilista que proponha fazer uma convenção com a mesma ADSE, é-lhe respondido que as convenções estão fechadas há alguns anos. Conclusão: Dependendo do grupo ou do indivíduo que está em determinado grupo, há coisas que se abrem com mais facilidades. E aqui acaba a democracia pois estes foram os eleitos para estarem à frente da fila e ao mesmo tempo a fechar, dado que a partir daqui já não é preciso mais nada. Todos os outros ficam para uma segunda oportunidade... . Quando precisarmos serão contactados ..... José Lopes
 
LL
Honra lhe seja feita: esta ministra diz ao que vem. Que ninguém a acuse de mentir e enganar. As asneiras que fizer, fruto dos seus preconceitos ideológicos, anuncia-os atempadamente em alto e bom som. Um exemplo de transparência e verticalidade que se aplaude. Pena é que o caminho que traça seja bem conhecido, bem como seu destino: o desperdício de dinheiro dos contribuintes e utentes, obrigados a suportar um sistema público de saúde que, sob o manto protector do estado, trata da sua saúde maltratando a dos seus utentes com ineficiências, atrasos, esperas e custos em muito superiores aos privados.
 
Rui Lopes
Um dos problemas da saude em Portugal está nos médicos. toda a gente sabe que a mesma equipa que opera X cataratas por dia na cruz vermelha, opera apenas 20% disso no hospital publico onde todos eles trabalham. A ministra em vez de puxar as orelhas a autarcas que mandam velhotes para CUBA, devia era lançar concursos publicos para operações em massa para redução de listas de espera desumanas. Só que o loby é demasiado forte... Eles ganham muito dinheiro no privado e depois ameaçam sair todos do publico... Só não vê quem não quer ver.
 
? (?)
Lembro me de quando tinha 18 anos fui ao barbeiro cortar o cabelo e ele reparou que eu tinha um quisto seboso no pescoco .Me perguntou se eu queria extrai-lo, nao pagaria mais por isso e a nabalha era a mesma com que fazia barba e cortava cabelo . Estou aqui agora com 65 anos e de boa saude felizmente Mas como os tempos mudam e tudo evoluio isso hoje e impensabel agora os homens ja nao vao ao barbeiro vao ao cabeleireiro eles ja nao bebem bom vinho bebem sumo cheio de quimicas e nao comem bom presunto comem yogurtes cheios de armonas enfim a desgraca humana aumenta e ninguem quer preceber isso porque as impresas do negocio tem todas as aritmanhas para capturar a vitima e alem das aritmanhas ainda tem a protecao dos governos para a destruicao da saude publica Hoje as pessoas morrem de cancro e enfartes nunca antes visto isso e de que ? das melhorias de qualidade de vida so se for isso ?
 
VL
Todos os Portugueses sabem quem são os prevaricadores, mas eu vou apontá-los: São única e exclusivamente os Médicos, acabe-se com isso, pondo-os na ordem, ou então substituam-nos por estrangeiros. Autarcas corajosos que, estes sim, têm consciência do problema e não estão para esperar que eles cumpram o TÃO "INVOCADO" JURAMENTO QUE FAZEM AO RECEBEREM A LICENCIATURA MÉDICA! SÓ querem é DINHEIRO, os doentes que o não possuam para lhes pagar, SÃO lixo!
 
FS (xsaldanha@oniduo.pt)
È evidente que a máquina economicísta de um país deverá estar nas mãos dos privados e controlada pelas regras impostas pelos governos.E foi assim que o BCP foi apanhado há bem pouco tempo.E foi muito mau para o país todo , que já não tinha muita consideração pelos investidores que eram uma data de assambarcadores sem escrúpulos.A iníciativa privada ficou muito mal vista com o que se passou com o BCP e não sei quando é que as coisas voltarão a melhorar.Leva-nos a ter de examinar a qualiadade dos nossos empresários que se calhar não são de confiança.E quem fica a ganhar é quem defende que o sector público deverá controlar tudo.Não é nada interssante.
 
CA
Cada euro de lucro no privado é um euro que podia ser utilizado em melhores cuidados no público (que não tem que dar lucro). Quanto à maior eficiência do privado, é apenas um canto de sereia. Os vícios do público e do privado são os mesmos: a diferença é que do dinheiro gasto no privado o lucro tem que sair logo do sistema e é com o que resta que se trata do doente.
 
 
envie o seu comentário
 
nome:
email (opcional):
comentário:
Os comentários enviados serão publicados após aprovação. O DE reserva-se o direito de não publicar comentários considerados como ofensivos ou sem ligação alguma ao artigo em questão

Publicidade

Serviços ao Investidor




[an error occurred while processing this directive]